domingo, fevereiro 26, 2012

Post tão grande que não têm de o ler, mas precisava de o escrever.

Gostava que este blog fosse mais alegre. Mais de bem com a vida, mais optimista, mais boa-onda. Foi com esse objectivo que o criei. Para ser uma espécie de refúgio da vida real onde simplesmente poderia esquecer tudo o que se passa 'lá fora' e criar um mundo imaginário, repleto de alegria. No entanto, não é fácil fazer uma divisão assim na nossa vida. Não é possível escolher quando pensar ou não no que nos preocupa.
Este post é uma forma de pôr em pratos limpos o porquê de às vezes não ser tão optimista como costumava ser; e é mais escrito para mim do que para vocês, apesar de gostar sempre de saber o vosso feedback.

A verdade é que os meses que antecederam este blog não foram, de todo, fáceis. Mais ou menos desde Setembro do ano passado que as coisas à minha volta entraram numa espécie de decadência e posso dizer que as coisas que me correm bem são as que dependem exclusivamente de mim, como é o caso da Faculdade. 
Não é fácil explicar aqui tudo o que se passou desde então, mas vou tentar fazer um resumo.

- No final de Setembro eu e o H. decidimos por de lado o que sentíamos um pelo outro. Não só por causa da distância, mas principalmente pelo facto de ele dizer que não tem disponibilidade para uma relação. Eu compreendi, aceitei e concordei. Combinámos mantermo-nos amigos, com a promessa de que o que aconteceu apenas serviria para nos manter ainda mais próximos e cúmplices enquanto amigos, como sempre fomos, sempre em sintonia. Mas não foi isso que aconteceu. Ele, por opção ou por simplesmente não saber lidar com a situação, afastou-me cada vez mais. Se antes do verão falávamos praticamente todos os dias e partilhávamos tudo, depois do que aconteceu tornámo-nos pouco mais do que 'conhecidos'. Felizmente, nas duas últimas semanas tenho reparado numa (muito) ligeira aproximação, e sinto que o sentimento continua lá. Da minha parte e da dele. Continua a existir a mesma química entre nós, eu sinto, e ele também o sente. Tenho pena de não poder explorar o que isto poderia dar. Não sei se é a minha cara metade, mas sabendo o que éramos, sei que tínhamos as potencialidades para levar uma relação a bom-porto. A ver vamos!

- Em Novembro, num domingo soalheiro, com a família em casa, a minha mãe resolveu cometer um acto que nos marcou a todos para sempre. Desde sempre que me lembro da minha a tomar anti-depressivos e a consultar o psiquiatra. Não faço ideia de como era a minha mãe saudável. Como é fácil de imaginar, conviver diariamente com uma perturbação mental, diagnosticada como Bipolar, desgasta uma família. E é sempre muito mais difícil quando ainda por cima se resolve estudar Psicologia - as pessoas insistem que é o teu dever compreender as atitudes dela, mas quando dás uma opinião, afinal não percebes nada do assunto! Estudo Psicologia, sim! Mas ainda não sou Psicóloga e tampouco segui a área clínica. Posso estar mais apta para entender, mas ela é minha mãe, e não sou obrigada a aceitar como se não houvesse mais nada a fazer! Como dizia, nesse domingo, a minha mãe resolveu tomar 19 comprimidos. Estava já a caminho de Coimbra quando a minha irmã me ligou. Ela estava na cama e não reagia a nada. Chamaram a ambulância, eu fui directamente para o Hospital esperar que eles chegassem. O INEM foi ter com os Bombeiros, estiveram quase uma hora parados a dar-lhe oxigénio. A minha irmã ia com ela na ambulância, o meu pai ia atrás de carro. Senti-me mal por serem eles a passar por aquilo e não eu. Felizmente, conseguiram salvá-la, apesar de ter sido por pouco. Os dias seguintes, aliás as semanas, foram horríveis! O meu pai chorava, a minha irmã estava completamente revoltada e zangada com a minha mãe, a minha mãe internada no hospital psiquiátrico. Eu em época de frequências e entrega de trabalhos, a fazer maratonas entre casa e o hospital. A minha mãe estava num estado tão miserável, corroía tudo o que tentávamos fazer por ela, fazia chantagem psicológica. Confesso, por mais horrível que possa ser, que cheguei a pensar que teria sido melhor que o suicídio tivesse dado resultado. Os primeiros tempos depois de ter regressado a casa foram os mais complicados. Ela estava completamente apática e eu sentia-me completamente impotente. Por algum motivo que desconheço e que provavelmente Freud interpretaria como recalcamento, quase não chorei. Desde o primeiro momento em que a minha irmã me ligou limitei-me a fazer o que tinha de ser feito, sem pensar sequer. Foi tudo a modos que mecanizado, como se não fosse eu, como se aquilo não tivesse sequer a ver comigo. Não me zanguei, não me revoltei... limitei-me a aceitar!
A minha mãe está muito melhor agora! Muito melhor do que antes do que aconteceu. Mais activa, mais atenta, mais cuidadosa... mais mãe! Pela primeira vez tenho-me permitido a ser a filha. Isso não acontecia há muito tempo.

- Ainda assim, o ambiente cá em casa sempre foi difícil... os meus pais não são propriamente almas-gémeas! As discussões sempre foram constantes, principalmente por causa do dinheiro, que sempre foi pouco. Tudo se complicou com o desemprego do meu pai. Sei que ele se sente culpado por tudo o que de mau acontece. Agora tenho a certeza disso! Sei que eles nos ama mais que tudo, e aprendi a valorizá-lo mais depois do que aconteceu, apesar de o feitio dele ser bem complicado! Mas ele revelou-se um Homem forte e eu não poderia sentir mais orgulho nele. Mas as discussões entre eles não cessaram, e passaram-se coisas que preferia não saber. A semana passada comentava com  o J. que estava a aproveitar o bom ambiente que se vivia cá em casa... Mas quando pensava que estava tudo a compor-se, a minha mãe e a minha irmã contaram-me que o meu pai, também ele, ameaçou suicidar-se. Com direito a espingarda colocada ao pescoço e tudo. Eu não vi, a minha irmã não viu. Felizmente! Sei que não foi mais que uma situação de desespero provocada por uma discussão mais acesa. Sei que a minha mãe o julga e esquece-se de que também já nos fez sofrer muito ao longo de todos estes anos. Não tem o direito de o culpar de nada porque nenhum de nós pediu p'ra conviver com a doença, e as causa já vêm da infância dela. Se o meu pai poderia ser mais calmo e tolerante? Claro! Podia e devia, e estou sempre a alertá-lo para isso. O problema aqui é que eles se limitam a culpar um ao outro ao invés de perceber que têm a mesma culpa!

- Fez ontem um mês que a F. faleceu. Apesar de termos morado juntas durante quase dois anos, não posso dizer que éramos super amigas. A minha ligação com ela era mais devida à S., a irmã, minha amiga desde o secundário. Mas é impossível não ficar em choque, foram dias complicados, em que me senti mesmo revoltada com a injustiça da vida. Em que chorei a sério ao ver a S. naquele estado.

- E para terminar, há o J. (não o de que vos já falei, mas outro que é igualmente importante na minha vida). O J. é meu primo, sempre morou na casa ali ao lado, conheço-o desde que nasci; desde que me lembro. É também o padrinho da L., fazendo par comigo, que sou a madrinha. Mas na semana passada foi para a França, emigrou. Foi ter com a irmã, o cunhado, e as duas filhas lindas deles que já tinham ido no Verão passado. Pensei 'que merda de país que obriga famílias a separar-se'! Mas o que me entristece mais são as saudades. Vou sentir falta dos filmes e das pipocas de sexta à noite - eu, ele, o irmão dele e a minha irmã; dos programas de domingo à tarde - fosse ir até ao shopping, à praia, ou ao bowling; de ter alguém para escolher comigo o folar da L., a prenda de anos e a de Natal; de chegar de Coimbra, vê-lo, ele tentar dar-me dois beijos e eu não querer (não sou de beijos); de ele perguntar se gosto dele e eu dizer que não só para implicar.

Posto isto, é mais fácil perceber porque é que às vezes não me sinto tão alegre! Apesar de tentar sempre encontrar um lado mais positivo em tudo! Quanto mais não seja, uma crise é sempre uma oportunidade de mudança. Podem achar que comparado com o resto, o 'problema' com o H. nem sequer devia ser considerado, mas a vida é um conjunto de vivências, tudo faz falta e influencia. Neste momento o que me corre melhor é a Faculdade! Apesar de tudo consegui tirar boas notas e fazer as cadeiras todas. Entrei no mestrado que queria, não me podia sentir mais realizada a esse nível. Também tenho grandes amigos, que me apoiaram quando mais precisei e tenho--me divertido com eles! Considero-me uma moça forte! Não me deixei abater, não entrei em depressão! Tenho momentos menos bons, mas não perdi a esperança e a alegria de viver, antes pelo contrário.
Sei que mais cedo ou mais tarde tudo vai ficar bem!

11 comentários:

  1. Parece que a vida tem tem trazido alguns dissabores, mas ainda assim não te deixas abater, e é assim mesmo. Vive um dia de cada vez, e tenta procurar sempre o lado positivo das coisas. A vida não é como queremos, e muito menos como imaginamos... por isso resta-nos aceitar as coisas como são, ser optimistas e jamais desistir!
    Um beijo, força :)

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  2. traças aqui um cenário bem complicado. Nem sei como é estar numa situação dessas, deve ser muito dificil. Mas tens-te revelado muito forte e tens levado a vida em frente, tal como deve ser. Comparado com isto fiquei sem vontade de me queixar da minha vida... Força com isso!

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  3. Não é fácil viver com uma pessoa como a tua mãe. Corrói-nos. Apaga-nos qualquer ânimo. Eu sei. Eu tive um avô assim, mas só o percebi quando era já tarde demais. O meu avô suicidou-se e o pior é que assisti a quase tudo e não pude fazer nada. Talvez tenha sido melhor assim, talvez não. É nos momentos de crise que crescemos se tivermos força suficiente para os ultrapassar e aprender com eles. Imagino que a tua vida não seja fácil, ou tão doce como desejarias, mas se dizes que aquilo que depende exclusivamente de ti corre bem é a isso que tens que te agarrar. Não podes salvar toda a gente, não tens que perceber toda a gente, não tens que ser mãe quando és filha. Tens direito a ficar revoltada, tens direito a ficar cansada e tens direito a escrever o que bem te apetecer no teu blog, visto que será para isso que ele serve :)
    Acima de tudo não te esqueças que és uma moça muito forte ;)

    Abraço
    **

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  4. Os nossos cantinhos são o espelho do que somos e do que passamos. É normal que ao passar-se isso tudo na tua vida não possas, de momento, estar toda alegre e isso não estar presente no teu blog.
    é uma situação complicado, principalmente a parte que tem a ver com a tua familia. Ainda bem que és uma pessoa forte e sabes que mais? O blog é um óptimo meio de desabafar. eu pelo menos sinto-me melhor ao desabafar com "estranhos" porque não me julgam. Assim sendo, se alguma vez precisares de um ombro amigo (por mais que seja virtual) podes contar comigo :)

    Beijinho*

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  5. Não imagino aquilo por que estás a passar, mas, pelo que vejo, és uma pessoa muito forte, que sabe dizer "Não me zanguei, não me revoltei... limitei-me a aceitar!".
    Não sei se isso se deve a estudares psicologia ou se, simplesmente, és uma pessoa boa, mas a verdade é que tenho a certeza de que a tua família, os teus amigos e o H. têm imensa sorte em te terem na sua vida.
    Espero que tudo melhore, que as conversas resultem e que, realmente, tudo fique bem.

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  6. A minha mãe tem uma depressão crónica e o casamento com o meu pai não é propriamente um conto de fadas. Entendo cada palavra que disseste minha querida. Eu sei que é frustante para nós quando vemos toda a gente com a vida facilitada e pensamos, porque é que comigo tem que ser assim diferente? Mas somos ossos duros de roer e nunca nos deixaremos afundar.
    Provavelmente um dia seremos óptimas mães, desenvolvemos capacidades de coping , somos boas amigas, maduras e sem dúvida que tb nos sabemos divertir ao máximo e seremos ainda muito felizes!
    Não te posso prometer que tudo vá ficar bem porque eu não acredito nisso, mas peço-te para aproveitar o melhor que cada dia te possa dar! Parece que o azar gosta de andar colado a nós, mas seremos sempre 3: ele, nós e o nosso sorriso!

    Força querida Jude! Quero ver mais do teu sorriso neste Blogue ! :)

    ***

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  7. Obrigada, meus amores!:) É bom ver que por aqui se vão conhecendo pessoas 'anónimas' mas que fazem a diferença! Um beijo!*

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  8. Querida Jude, que todo o lado mau te faça crescer e te torne ainda mais forte do que aquilo que decerto já és! E acima de tudo que aprendas a valorizar apenas o lado bom. E acredita que tudo o tem. Cabe-nos a nós ver para além do nevoeiro. E tal como dizes, mais cedo ou mais tarde vai ficar tudo bem. Um beijinho repleto da maior força para ti! ;)

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  9. Só me ocorre dizer isto: Aquilo que não nos mata, torna-nos mais fortes! Acho que este pensamento encaixa perfeitamente na tua história de vida... As coisas não têm sido fáceis para ti, mas mesmo assim não escolheste o caminho mais fácil, que seria desistir... Foste à luta, conseguiste manter-te à superfície, por mais díficil que tenha sido, e isso é de louvar...
    Espero que essa força nunca te abandonde, e quando a sentires esmorecer pensa em tudo o que já conseguiste ultrapassar! És uma lutadora, e os lutadores só merecem uma coisa: serem felizes!

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  10. Há um gajo no youtube que era bipolar e que se curou, depois de ele próprio fazer uma investigação aprofundada sobre o assunto.
    Lembro-me de o ter descoberto há uns 2 ou 3 anos atrás, quando eu andava a pesquisar sobre psicologia e espiritualidade, e de ter aprendido umas coisas com ele.
    Já não me lembro muito bem, mas os vídeos dele são muito bons a explicar a bipolaridade (e não só), com uma abordagem diferente da da tradicional comunidade psiquiátrica. Inclui espiritualidade.
    Foi ganhando muitos seguidores ao longo dos anos, e até já lançou um livro há pouco tempo:
    Amazon.com: Am I Bipolar or Waking Up?

    Dá uma vista de olhos nos vídeos dele, se estiveres interessada (é em inglês):

    Vídeo onde conta a história dele:
    Parte 1 de 5
    etc

    Solving the Bipolar Puzzle:
    Parte 1
    Parte 2
    Parte 3
    etc, até ao 23

    O canal dele: bipolarORwakingUP

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  11. Quando se vive demasiado tempo num ambiente assim, habituas-te, ganhas uma certa insensibilidade. A culpa não é tua, simplesmente acontece. Ganhas uma camada protectora bem fria e nem notas. Há dias em que é útil, outros em que odeias tê-la. És forte e toda esta história de vida só te irá tornar numa pessoa melhor. Acredita! Não te sintas mal por teres desejado a morte da tua mãe, se ela não era uma mãe para ti, não podes ser hipócrita. Sentiste o que sentiste. Força!

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