sexta-feira, junho 15, 2012

Nunca fui chegada aos meus avós. Não fui criada por eles nem passava as tardes em casa deles, como muitos de vocês terão feito. A minha mãe sempre foi doméstica, quando começou a trabalhar já nós éramos crescidas e, portanto, nunca houve a necessidade de ficar em 'casa da avó' enquanto os pais iam trabalhar. As visitas eram feitas ao domingo. Quando era pequena íamos à 'avó lá de baixo' e depois 'à avó lá de cima'. A de baixo era a materna, a de cima a paterna. Com os avós 'lá de cima' nunca houve grandes confianças... É assim o feitio da família desse lado, gosta-se, sim, mas não há grandes demonstrações. Eu saio a eles, e com muito orgulho! 

A família do meu pai é resistente, é forte, tem problemas e ultrapassa-os, pode queixar-se mas não desiste, somos independentes, gostamos de achar que só dependemos de nós... não é bem assim, mas tentamos e isso é bom, torna-nos mais capazes. Os meus avós paternos têm 85 anos, 60 de casados, 6 filhos, dão-se bem, continuam a morar sozinhos, independentes. A idade começa a pesar, mais na avó do que no avô. Ela é a pessoa mais serena que já conheci, ele ainda mantém um certo espírito jovial. Não sei se os amo. Tenho pena, são família, são os avós, mas como disse, não fui criada dessa maneira e os laços de sangue não bastam. Tenham um grande carinho por eles, isso sim, e sei que é exactamente o mesmo que sentem por mim. De qualquer maneira não quero que partam tão cedo e ficarei muito triste quando isso acontecer.

A família da minha mãe é outra história. É desequilibrada e por isso fico feliz de não ter herdado esses genes. A única irmã da minha mãe desapareceu com o marido, levaram o dinheiro da conta dos avós, levaram o filho, nunca mais a vimos e já lá vão quase 10 anos. O marido era um nojentinho que batia no miúdo, provavelmente batia também nela. Uma vez ela tentou matar-se, foi o filho que lhe tirou a corda do pescoço. Ninguém merece passar por isso. Antes de desaparecerem expulsaram os meus avós maternos de casa e eles foram morar p'ra parte de baixo da nossa casa. Foi na Páscoa. No início tudo correu bem, mas depois... bem, a doença da minha mãe não lhe deu a desenvoltura necessária p'ra cuidar deles. E eles não são de lida fácil. A minha avó é uma pessoa má. Não a amo, tampouco tenho carinho por ela. Tenho pena. E isso é triste. Mas ela é má, mentirosa, falsa... se sofre só tem o que merece. É por causa dela que a minha mãe chegou ao estado a que chegou. Por causa das tareias que lhe dava, das vezes que a tratava como uma escrava...a minha mãe era uma criança. A minha avó sempre tratou a outra filha como uma princesa. A minha mãe chegou a deixar de comer porque a irmã ainda tinha fome. No fim de contas ela apostou na filha errada. Se agora sofre, temos pena...
O meu avô materno é uma incógnita. Vários AVC's nunca me permitiram conhecê-lo como terá sido na sua juventude. Só o conheço já fraco, cabisbaixo. A minha avó todos os dias lhe zurra aos ouvidos, chama-lhe nomes, trata-o mal, só não lhe bate porque está numa cadeira de rodas. Todas as madrugadas se ouvem os berros dela, nem à noite lhe dá descanso. O meu avô foi para as Urgências pela segunda vez em três semanas. Princípio de AVC. Se me perguntarem, digo-vos que a culpa é da minha avó. Ninguém consegue viver naquele martírio sem chegar a um estado limite! Ele chegou! E mesmo quando ele voltou da primeira ida ao hospital, depois de ter sido operado a uma veia na cabeça, ela se deixou estar calada. Gritou, gritou, gritou até que ele voltou a não aguentar. Sinto carinho e compaixão pelo meu avô. Espero que ele fique bem, que possa passar os seus últimos tempos em paz, longe da minha avó, portanto. Espero que ele vá para uma casa onde possa ser bem tratado, como merece. Onde possa conviver com outras pessoas sem ela ralhar com ele a seguir. Mas ele foi hoje para os Cuidados Intensivos. E eu só queria que tivesse sido ela.

8 comentários:

  1. Olha --- deita lhe calmante na comida da tua avó que ela dorme que nem uma menina!! Muito sinceramente nao sei como aguentas!! lha que já tinha dito das boas à tua avó e abanado-a!! ela que nao pense que a idade é ter o direito de maltratar os outros!! lol
    Desculpa falar assim..mas seja de quem for não tolero falta de respeito!!
    Beijinho*Espero que o teu avô viva por muito tempo e bem! para que o possas conhecer!!
    Eu cá perdi os meus avós relativamente cedo! só sobrou a mãe da minha mãe!! que enfim! também trata metade dos filhos como filhos e outros como escravos e empregados...enfim.. a uns da montes de dinheiro e aos que mais precisa nada dá! enfim.. ja o meu avô era diferente...muito mais justo!!! Enfim.

    Beijinho***

    ResponderEliminar
  2. Escrevo apenas para te deixar um beijinho repleto da maior força. És uma grande mulher e independentemente daqueles que te rodeiam, não desistas nunca daquilo que te faz feliz!*

    ResponderEliminar
  3. Eu sei que nestes momentos não é isto que se quero ouvir, mas este deve ter sido o post mais interessante que li, de sempre, normalmente as pessoas não são tão sinceras.
    Admiro a tua coragem, deve ser muito difícil aguentar essa situação... eu acho que explodia. Desejo-te muita força!

    ResponderEliminar
  4. awww tens tido mesmo muita coragem!!! Muita forca mesmo! Eu tenho a sorte de ter avos normais, mas nem todos os casos sao assim, tal como nem toda a gente tem maes normais, daquelas que eu nao desejo a ninguem.
    Coragem!

    ResponderEliminar
  5. Muita força, é o que te desejo e muita paciência, isso não vai durar sempre... És uma mulher muito corajosa.
    Beijinho

    ResponderEliminar
  6. Também eu não tenho uma ligação próxima com os meus avós, porque a minha mãe é doméstica e devido à distância. Mas no fundo tenho pena, porque perdi os miminhos de avó. Ainda assim no Natal é sagrado ter um prato de pastéis de bacalhau só para mim. Vejo nos meus avós maternos a tristeza de não termos tido essa ligação. Acho que me consideram a mim e à minha irmã dos netos mais bem formadinhos. Há quem não valorize ter ali os avós tão perto...

    E quanto às desavenças, bem, eu ficaria muito triste de ver algo assim de tão perto. Todas as famílias têm uma ovelha negra, e a minha não é excepção. Passo por mal educada quando faço cara de frete perante uma tia minha. Caneco, ela só fala da distribuição de bens quando os meus avós morrerem e eles ainda cá estão vivinhos da silva! --' LOL

    ResponderEliminar
  7. Fogo... o teu avô materno é um santo e um mártir! Infelizmente, essas preferencias por um filho mais que por outro existem e juro que não entendo. Não é função dos pais amar por igual?

    ResponderEliminar
  8. Obrigada a todas pelo apoio... às vezes acho mesmo que não sou merecedora desses elogios. Não sei se serei assim tão forte!:/ Mas as vossas palavras são um incentivo! Muito obrigada! :)

    ResponderEliminar