sexta-feira, julho 13, 2012

Querer é poder (?)

Uma das consequências de passar mais tempo em casa é acabar por assistir, quase inevitavelmente, aos programas de entretenimento da manhã ou da tarde. Mas hoje à tarde, no da TVI, acabei por assistir a uma entrevista um tanto ou quanto curiosa.

Tratava-se de uma rapariga de 21 anos que foi convidada para o programa por ser muito activa e empreendedora - para terem uma ideia, foi entrevistada com o mote "Querer é Poder".
A Ana (acho que era esse o nome dela) pediu aos pais para aprender inglês aos 7 anos. Estudou 10 anos na Cambridge, sendo que aos 13 se mudou para o Reino Unido, sozinha, para aprender a falar fluentemente. Ainda em criança, pediu para ter aulas de piano, e seguiram-se aulas de dança e de canto lírico. A Ana está no último ano de mestrado em Comunicação Social e editou há pouco o seu segundo livro, sendo que, aos 14, editou o primeiro, em que abordava a temática da violência doméstica.

Toda a entrevista foi conduzida num tom demasiado "formal" para o meu gosto. E a rapariga, apesar de ter mérito por tudo o que já alcançou com a idade que tem, não mostrou um pingo de humildade.
A razão por que falo disto está ligada com o facto de terem escolhido a frase "Querer é poder!" para descrever o percurso da Ana. Vejamos bem: aulas de inglês na Cambridge, aulas de piano, de dança e de canto lírico, viagens para Inglaterra (entre uma série de outros projectos e actividades que foram referidos), não estão ao alcance de todos. Se não fosse o suporte dos pais (moral sim, mas, neste caso, principalmente financeiro) que também estavam presentes e referiram nunca ter privado a Ana de nada, arrisco dizer que o percurso dela teria sido um pouco diferente.
E atenção! Não estou a desvalorizar nada do que ela conseguiu fazer, antes pelo contrário! Admito que é um percurso invejável e, mesmo com dinheiro, é necessária inteligência e fluidez para chegar onde ela já chegou. Mas não me venham dizer que "Querer é poder!" porque sem apoio financeiro, o querer não vale de muito, pelo menos neste caso. Há excepções, todos as conhecemos, mas não são a regra.
E, tendo isso em conta, acho que a entrevista teria feito muito mais sentido com alguém que realmente representasse essa premissa. Alguém que passou por dificuldades reais para chegar a um lugar de destaque e não alguém que se limitou a dizer aos pais que queria ter aulas disto e daquilo e que as teve, de mão beijada. É claro que ela não tem culpa de ter dinheiro, mas o único mérito extra que lhe aponto é o de, apesar de tudo, ter aproveitado os recursos que teve para investir em si de uma maneira tão segura, e não se ter limitado a transforma-se numa tia em versão mini como tantas vezes se vê.
Ou seja, a minha "crítica" não é à Ana, nem ao facto de ter recursos que muitos não têm. Cada um nasce com o que nasce. A minha crítica vai para a expressão utilizada para descrever a vida dela. Acho que foi mal escolhida, principalmente tendo em conta a realidade actual do nosso país, em que todos os anos lectivos, por exemplo, se reportam casos de jovens que têm de desistir da faculdade por falta de recursos económicos. Porque para esses, e para muitos de nós por uma série de razões, nem sempre basta querer.

8 comentários:

  1. Eu não acrescentava uma única palavra a este texto. Não vi essa entrevista, mas as tuas palavras foram suficientes para poder imaginar e concordar plenamente com tudo o que dizes.

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  2. Concordo em tudo aquilo que disseste. É óbvio que ela tem o seu mérito, porque apesar de tudo não teve medo dos desafios! Mas se querer é poder? Era bom que assim fosse, éramos todos bem mais felizes... eu também quis e quero imensa coisa, mas às vezes não dá!
    Um beijo.

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  3. Liguei a TVI à hora dessa entrevista e vi, de facto, esse tema. Mas não me interessei muito e mudei de canal. Agora em relação ao que escreves, concordo com tudo! Admito que, realmente, a rapariga tenha muito mérito por tudo o que conseguiu. Agora que "querer é poder"... Naa! Isso já é mais frase feita do que outra coisa. E cada vez é mais difícil que isso se aplique :(

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  4. Tens de ver ao contrário: gente com muito dinheiro que nunca conseguiu nada, ou não quis, em educação.
    Dinheiro ajuda, mas não é tudo. :)

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  5. Exatamente, há muita gente que se tivesse as mesmas possibilidades conseguia ir mais longe ainda mas, infelizmente nem todos nascem em berços de ouro!

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  6. Nem mais! Que alguém vá para Londres à aventura sem nada garantudo correndo riscos e seguindo um sonho, admira-me. Agora abrir a boca e cair-lhe tudo do céu, bela coisa...

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  7. Tens toda a razao... e até conseguiu mt pk kd os pais dao demais .. faz se de menos!!!

    Mas podia tb ser mais humilde e podiam ter arranjado alguem mais realista!! O que lhe aconteceu não acontece a todos... porque os que querem normalmente não podem!!!

    BEijinho***

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  8. 100% de acordo contigo.
    Fazer as coisas com vontade nem todas a têm, mas se a tiverem, e ainda por cima com as costas quentes do apoio total dos pais, então o querer sempre pode ir mais além!

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