terça-feira, setembro 25, 2012

A páginas tantas... #6


Este entrou directamente para o pódio dos meus livros favoritos. Gostei de tudo. Da forma como o autor brinca com as palavras, da forma como descreve tão realisticamente os sentimentos comuns a todos nós, a forma como escreve desalmadamente, como que se escrevesse ao mesmo ritmo a que pensa e que, por isso, sai tudo cá para fora. O romance não é autobiográfico (pelo menos assumido), mas consegue perceber-se que há muito do autor na personagem Giacomo. Seria, aliás, impossível criar uma personagem tão rica sem ter por base algo muito, muito pessoal - desde relações, a opiniões, a formas de perspectivar a vida. Gostei genuinamente do livro, principalmente por me ter identificado com tanto do que estava escrito, quase como se pudesse ter sido eu a escrevê-lo - não de forma tão competente, mas como se as ideias pudessem ter surgido na minha cabeça.
Este é daqueles livros que se terminam mas que não dá vontade de o fechar de vêz. Fica-se a contemplá-lo, a reflecti-lo, e a história permanece em nós muito depois de o termos guardado de novo na estante. Por estúpido que possa ser, apetecia-me dizer ao Fabio Volo um obrigado! Por ter escrito algo tão sublime!


- (...) Parece sempre que uma mulher não se casa por não ter encontrado a pessoa certa e não por opção. (...) Estava farta de ser olhada como uma coitada por mulheres que sonham vir a ser esposas a todo o custo. Por isso, mudei de ares.
- E agora andas à procura do homem perfeito?
- Espero que não... sabes, acho que o homem perfeito procura justamente a mulher perfeita. Não teria hipótese.
- Então o que procuras?
- Não sei. Talvez nada, talvez tudo. Talvez agora, mais do que procurar, queira viver aquilo que acontece, aquilo que a vida me dá. Gosto de jogar. De ser livre. Tenho um trabalho (...) que me agrada e que arranjei sozinha. Sinto-me feliz e orgulhosa em mim, mesmo quando faço compras e empurro o carrinho do supermercado. Se me dá na gana, à noite, saio; senão fico em casa a ler ou a ver um filme ou a fazer um petisco para mim ou para os amigos. Às vezes, ponho a mesa, ou então sento-me no chão, encostada ao sofá. (...) Não tenho por que discutir. Sou independente. Defenderei essa situação com todas as minhas forças. Sempre. No entanto, por vezes, também tenho necessidade de um abraço (...). Um abraço que me faça sentir protegida, embora saiba proteger-me sozinha. Sou capaz de fazer as coisas de que preciso, mas às vezes gostaria de fingir que não, só pelo prazer de levar alguém a fazê-las por mim. É uma sensação. Mas não quero estar com um homem por causa disso. Não posso ceder a compromissos e não posso renunciar a tudo o que tenho, à minha liberdade, por esse abraço que depois, com o passar dos anos, deixa de existir.
(...)
- Sei lá... gostaria de um homem com quem me sentisse bem. Um homem sentado ao meu lado quando estou no cinema, ou no restaurante, ou no autocarro. Gostaria de encontrar uma pessoa com quem pudesse partilhar perspectivas. Não quero dizer forçosamente casamento, filhos, etc. Mas também não quero um desses homens que se assustam quando pedes uma coisa mais distante do que dois dias. (...) Gostaria de alguém que me agradasse e gostaria de lho dizer sem ele se assustar, sem me fazer sentir que sou uma prisão. Gostaria de um homem que me procure com a mesma serenidade quando eu não o procuro. Como tu fizeste, ao vires cá. E, acima de tudo, gostaria de um homem que exista.
- O que quer isso dizer?
- Eu sei o que quero dizer, embora não consiga explicá-lo. Um homem que exista. Um olhar por detrás de tudo. É uma forma de olhar em silêncio que significa tudo para mim. (...)

Conversa entre Michela e Giacomo
O Dia que Faltava, Fabio Volo

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