segunda-feira, setembro 03, 2012

Esta sou eu.*

O facto de estar a escrever sobre isto neste momento, tem a ver com uma série de situações que tenho vivido e presenciado nos últimos tempos. Às vezes torna-se necessário redefinir-nos, mostrar aos outros que estão errados acerca de nós, que estão a valorizar o que menos importa. A semana passada recebi um elogio pouco bonito de alguém que valorizo muito, talvez de mais. O mesmo alguém que já me teve como me criticou e me fez começar a duvidar de mim própria pelos motivos errados. Felizmente, cresci o suficiente para perceber quem está errado e para perceber que talvez essa pessoa se tenha tornado "num deles".

Lembro-me perfeitamente do ano em que me tornei gordinha. Era ainda pequena. Do terceiro para o quarto ano da primária engordei substancialmente. Lembro-me da professora do terceiro ano nos vir visitar no ano seguinte e me ter dito que estava gorda. E foi aí que tudo começou.
Nos 7 anos que se seguiram sofri do que na altura era bullying mas que ainda não tinha esse nome. Por incrível que pareça, só anos mais tarde, já na faculdade, ao abordar o assunto nalgumas aulas, é que descobri que tinha passado por isso.
Durante os meus anos de ensino básico e início do secundário fui permanentemente gozada pelos rapazes. As aulas de educação física eram os piores momentos da minha semana e acabava, quase invariavelmente, a chorar quando regressava ao balneário. Os pré-adolescentes começam a dar uma importância ao corpo e à sua beleza que até aí não consideravam como factor. E com isso, vêm os preconceitos, as humilhações e os comentários cruéis. É exactamente nesse momento que se percebe que já não estamos na presença de uma criança. Porque uma criança tanto dá um abraço a um gordo como a um magricela. Apenas retribui o afecto que lhe dão, independentemente do aspecto exterior. Os pré-adolescentes começam a fazer selecções. Fazem-se grupinhos de acordo com o aspecto, o peso, e as roupas que se vestem.
Felizmente, sempre tive amigos permanentes, daqueles que ficam não importa o resto. Aprendi que era a esses que tinha de dar valor, e não aos rapazes que me gozavam nos intervalos mas que me pediam ajuda para copiar nos testes e que, eu, burra, na esperança de que isso terminasse com o linchamento, ajudava.
Mas a adolescência é uma idade complicada. Cresce-se, começa-se a olhar para os outros com outros olhos. No meu décimo ano era ainda gordinha. Via, porque era natural, casais a formarem-se e a desfazerem-se todos os dias. Entre amigas comentavam-se as primeiras experiências com o sexo oposto. E, mais uma vez, era evidente que a beleza do corpo era um factor determinante na construção de um par de namorados. Lembro-me de ter prometido a mim mesma que não faria por emagrecer porque não queria que um rapaz se aproximasse só por eu ser gira. Na altura pensei que, ao contrário das minhas amigas, saberia que ele gostava realmente de mim se estivesse comigo mesmo eu sendo como era. E aconteceu. Eu e o J. tornámo-nos melhores amigos nesse ano, quando eu o comecei a ajudar a "conquistar" uma amiga minha. Ele era o típico rapaz popular. Giro, rebelde, com as moças todas embeiçadas por ele. Foi uma surpresa para mim quando ele se mostrou interessado, quando me beijou naquela viagem de final de ano. Com o início das férias iniciou-se também o meu primeiro namoro. Não durou muito. As inseguranças são tramadas e não desaparecem de um dia para o outro. Eu gostava dele, ele estava comigo mesmo eu sendo gordinha mas, ainda assim, eu não poderia ter a certeza que ele realmente sentia o mesmo. Aos 15 anos é complicado gerir as emoções e, portanto, o namoro acabou e eu estava decidida a emagrecer para ter a certeza que um rapaz não só se interessaria por mim como se manteria comigo.
*Esta mesmo.
Esse verão foi decisivo. Emagreci e emagreci muito. Entrei para a outra "equipa". Percebi não só o que era sentir-me atraída mas também o que era ser considerada atraente. Agora, se me perguntarem se era mais feliz... não. Nos meses seguintes eu estava obcecada com a minha aparência. Passavam dias em que comia uma maçã verde ou um iogurte. Mais nada. Fiquei anémica. Mas era bom, era mais que bom, ouvir os elogios. Ver que os rapazes olhavam para mim de outra forma. Não me orgulho da pessoa que fui nessa altura porque me tornei um pouco na mesma pessoa que eles eram. Magoei o T., que gostava de mim e a quem eu dei esperanças para depois deixar de lhe falar. Magoei o H. que gostava de mim ainda antes de eu estar magra (e que, agora, me magoa a mim - what goes arround comes arround). Mas, no fim, cumpri o meu objectivo. Voltei a namorar com o J. e sentia-me confiante. O namoro durou vários meses, e mesmo com o fim do namoro, o nosso envolvimento prolongou-se até ao primeiro ano de faculdade. Terminou porque tinha de terminar mas permanecemos amigos. Nessa altura eu já tinha crescido, tínhamos crescido juntos, percebido que há coisas tão importantes (leia-se amor) que deixam as questões da aparência a um canto. Aos 19 já se está a entrar na idade adulta. Tornei-me uma melhor pessoa, deixei de dar importância aos aspectos e às pessoas erradas. Deixei de fazer da minha vida um sacrifício. Com o tempo voltei a alimentar-me como gente normal. Sair da selva do secundário e entrar na faculdade foi um factor decisivo. Tornei-me independente e percebi que não precisava do parecer dos outros para fazer a minha vida. Dependia apenas de mim ser uma melhor pessoa e, a estudar Psicologia, estava mais concentrada em ser melhor por dentro do que por fora. 
Nos últimos anos voltei a engordar. E se me perguntarem, digo-vos que sou feliz. Não estou feliz todos os dias, ninguém está, mas sou feliz. A meu ver, tornei-me uma pessoa bastante bonita por dentro. E por fora também gosto igualmente de mim. Considero-me bonita e sinto-me confiante com aquilo que sou e mostro. Nos últimos tempos comecei a dar mais importância ao exterior, não devido ao aspecto em si, mas devido à saúde. Quero ser uma pessoa saudável que se aguente por cá muitos anos. Vai daí dou mais importância à alimentação ao exercício, mas sem extremos. O passado serviu-me de lição. Prefiro ser cheia por fora do que oca por dentro, como todas as pessoas que valorizam a imagem acima de tudo, que são excessivamente lindas à primeira vista mas que se pequenos monstros quando se olha ao pormenor.
Esta sou eu e só espero que se aproximem se não se importarem com isso. Não tenciono mudar por ninguém a não ser por mim.

17 comentários:

  1. Mas que belo texto tens tu aí... também já fui mais gordinha do que sou. Felizmente tenho, tal como tu, amigos que gostam de mim pelo que sou e não pela aparência que tenho...
    Acredito que não tenha sido fácil escreveres isto tudo!
    Um grande beijinho*

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  2. revi-me muito neste texto... o que importa não é o aspecto exterior mas sim o nosso interior.. e se estivermos bem com isso é uma mais valia :)

    kisses***

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  3. Alturas houve em que pintavas o meu eu. E por isso te posso dizer que teres dado a volta é absolutamente louvável. Parabéns minha querida!

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  4. Este teu post é... nem consigo descrever! Revi-me em muitas das tuas palavras, do que passaste. Sofri como tu, não pelo peso, mas por ser o patinho feio e aquela nada fazia se se metessem com ela (e que por isso era mais um motivo para ser gozada). Enfim... Foram tempos duros mas que me fizeram ser a pessoa que sou hoje.
    Este teu blogue foi uma excelente descoberta para mim. E gosto mesmo muito do que escreves e já sinto uma grande empatia por ti.

    Beijinhos minha querida! ♥

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  5. só devemos mudar por nos nunca +pelos outros... :)
    gostei do que li:)

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  6. Sempre me importei com o meu peso, mas nunca o fiz por me preocupar com o que os outros achavam. Interessa sim como nos sentimos bem.

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  7. Que maravilhoso texto! Eu sempre fui magra, mas a minha irmã teve mais ao menos os mesmo problema que tu e no secundário também fez dietas e mais dietas e conseguiu emagrecer... Os meus pais sempre se preocuparam imenso com ela por causa disso, mas felizmente nunca teve nenhum problema! Os adolescestes são cruéis, por vezes nem sabem o mal que fazem aos outros, mas só para se afirmarem (nem sempre da melhor maneira) tentam estar sempre por cima de alguém! Ainda bem que tudo se resolveu e agora és feliz como és, isso é que é importante! Pelo que vejo por este blog deves ser uma óptima pessoa, por isso continua a ser como és, o aspecto é o menos importante ;) Bjinhos ****

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  8. A adolescência é uma fase de merda. Felizmente é só uma fase. Identifico-me com as tuas palavras, mas eu era Olívia Palito. Quanto ao resto, não vejo onde estejas gorda. Pareces-me saudavelmente normal ;)

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  9. este post só mostra como és forte e decidida. Infelizmente há imensa gente que passa por essas coisas na adolescência. Mas só nós é que nos definimos a nós próprios, nós é que decidimos de que lado é que queremos estar. E tu queres estar do teu lado, do lado das coisas que te fazem feliz. E é assim que deve ser. Parabéns a ti por não te teres tornado naquelas magras ressabiadas e ocas por dentro.

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  10. Grande JUDE! Quase podia dizer muitas coisas aqui que se identificam comigo, também sou, também fui gozada e criticada, mas o melhor é sentimo-nos bem como somos. Antes encheiinhas do que ocas, e a maioria das beldades que desfilam aí são azedas que eu sei lá. Digo-te parabéns pelo texto, não é fácil a adolescência, nada fácil.

    Agora estou cheiinha, mas quero mudar por mim, pela minha saúde não pelo que as pessoas querem ou esperam de mim. Um beijo enorme!

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  11. Acho engraçado que eu engordei mais ou menos na mesma altura que tu. Mas só quando cheguei à faculdade é que comecei a perder peso. Sou sincera, ainda me sinto um bocado perseguida pelo medo de voltar a ser mais pesadota porque não quero ser gozada outra vez.
    De qualquer forma, quero dizer-te que gostei muito do texto e que fico contente por seres feliz como és neste momento. Isso é o mais importante!

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  12. ehehe a minha vida foi semelhante a tua... e complicado gerir o que vai na cabeça, no coraçao dum adolescente... a vida nao e facil.. e crescer parece mm que nos deixaram numa selva...
    agora preocupo-me na mesma com a parte de fora! mas preocupo-me tanto uqanto com a parte de dentro... quando faço exercicio... sinto-me bem por dentro e por fora, e sinto-me mais equilibrada!! emocionalmente! o mesmo acontece quando tenho uma alimentaçao saudavel!!

    Eu ja namoro ha muitos anos ... e admito que tb quero ficar gira para ele! mas tb quero que ele fique para mim! e nao so por fora|! tento saber mais sobre coisas de cultura geral e afins... e ser boa pessoa... sim... tb ... pois durmo melhor a noite =)


    Ja cometi muitos mas muitos erros na vida... mas olha, o k ta feito ta.. o k interessa e k tentes fazer o melhor que consegues com aquilo que tens... nao te podem exigir mais que isso.. por issoo...

    =) Beijinho*******

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  13. Quando dizes 'Prefiro ser cheia por fora do que oca por dentro', não podia concordar mais contigo! Há por aí tanta gente fútil que só dá valor à aparência e depois abrem a boca e não sai nada de jeito, pffff.

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  14. Gostei muito deste texto e da tua capacidade de partilhares uma parte tão grande da tua vida connosco. Pareces-me uma rapariga linda por fora e especialmente por dentro, nunca percas esse teu "eu" que é sempre o que nos torna especiais e diferentes dos demais. Muitos beijinhos

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  15. Isto é maturidade. Parabéns! Orgulha-te sempre de ti.

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  16. Um abraço apertado para cada uma de vós!***

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