sexta-feira, janeiro 25, 2013

Lembro-me deste dia, há um ano atrás, como se tivesse sido a semana passada. Estava em plena época de exames, a estudar na biblioteca da faculdade. Tinha várias chamadas da M., que não atendi por ter o telemóvel no silêncio. Enviei-lhe uma mensagem a dizer que estava na biblioteca e que não podia falar, e ela pediu-me para que saísse, que precisava de falar comigo. Quando ela me contou caiu-me tudo. Entrei em histeria. Há coisas que não podem e não devem nunca acontecer! Uma delas é uma irmã encontrar a outra irmã sem vida. Depois do telefonema não consegui estudar mais e apanhei o autocarro para casa. A casa que tinha partilhado com ambas. A casa que ainda partilhava com a S. mas que, daí a pouco tempo, deixaria de partilhar. Lembro-me de falar com ela ao telefone nos claustros da faculdade, lembro-me do desespero e das lágrimas dela mesmo sem as ver. Lembro-me das minhas lágrimas e do meu sentimento de impotência porque não podia fazer nada para amenizar aquela dor.
Nos dias seguintes lembro-me, "fotograficamente", do velório, das pessoas que estavam presentes, da hipocrisia das pessoas que foram para assistir à desgraça de uma família. Lembro-me de mim e da L. a levarmos a S. dali para fora porque já era insuportável. Lembro-me da viagem de carro, lembro-me de chegarmos a casa da L., da canja que a mãe dela preparou para o jantar e que a S., só a muito custo, se obrigou a comer. Lembro-me do frio intenso que se fazia sentir, dos chinelos que a L. trouxe para nós, para aquecermos os pés à lareira. Lembro-me de regressarmos ao velório, ao fim da noite, da S. a abraçar-se a mim a chorar e de me dizer "tu disseste que só as pessoas velhinhas é que morrem...", lembrando-se de quando lhe contei como tinha explicado a morte ao pequeno R.. Lembro-me de regressar a casa, já tarde e de, no dia seguinte, ir buscar as flores para o funeral. Chegámos todos juntos, os amigos dela. E lembro-me exactamente da forma como estava vestida, da forma como chorou desesperadamente quando a tuna da faculdade delas tocou junto à campa. Da forma como foi amparada pelo P. quando deixou de ter forças para se manter de pé. Lembro-me de chorarmos todos juntos, abraçados como se, se fizéssemos muita força, as coisas voltassem ao normal.
Mas não voltaram. Não para ela. Passou um ano e ela sonha com a irmã todas as noites. Todas. E sente vontade de falar sobre a irmã todos os dias. Não imagino, nem sequer uma pequena parte, do que ela sentiu naqueles dias e do que deve continuar a sentir. Do que deve estar a sentir hoje, um ano depois de ter perdido a F.. Espero nunca vir a saber o que é sentir essa dor!
Hoje, tudo o que lhe posso dar são algumas palavras de força, e sinto a mesma angustia que senti naqueles dias, por não poder fazer nada melhor do que isso.
Quanto à F., não sei se acredito ou não nessas coisas, mas se assim for, sei que, durante este ano, olhou pela S. todos os dias. E, mesmo que não faça sentido, gosto de acreditar que, os dias felizes que ela conseguiu ter durante estes 12 meses, tiveram a mãozinha dela porque, esteja onde estiver, a felicidade da irmã sempre foi o mais importante para ela.



7 comentários:

  1. que história tão triste, devem ter sido uns momentos terríveis! espero que ela agora esteja bem! força para ela e para toda a família! bjinhos***

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  2. Sei bem o que isso é querida... o meu primo também nos deixou em Setembro, tinha apenas 22 anos... Foi um choque enorme, ainda hoje tenho vontade de lhe ligar e falar com ele... Sei que isso não vai acontecer nunca mais, mas às vezes ainda penso que é mentira...
    Aquilo que a tua amiga precisa e um ombro amigo, porque apesar de já ter passado um ano é uma dor que vai ficar para sempre!
    Um grande grande beijinho*

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  3. não consigo imaginar o que essa irma sentiu :/

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  4. lembro-me de há um ano atrás teres referido este acontecimento e de ter ficado mesmo tocada com esta história. E hoje, que a recordas, continuo com aquela sensação estranha, aquela "pena" que situações assim tenham que acontecer. É mesmo triste quando alguém parte, mas quando é assim alguém tão novo, parece que custa mais, mesmo não conhecendo a pessoa. Bem sei como é difícil lidar com a dor dos outros, daqueles de quem nós gostamos e que queremos proteger. Muita força para todos!

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  5. Oh minha linda, até me vieram as lágrimas aos olhos... que história triste :(

    Muita força para todos

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  6. Como foi referido, a mim também me vieram as lágrimas aos olhos querida, e eu entendo a tua aflição, porque eu amo muito as minhas amigas, e quando elas estão mal eu tento fazer de tudo para que elas fiquem bem. Mas a dor da morte de uma pessoa não podemos tirar, não é verdade ?
    E o que podemos fazer, ou dizer ?!
    Acho que essa tua amiga precisa de muito carinho da tua parte e das vossas amigas. Não vos conheço, mas dá uma forcinha a ela, da Marlene Ribeiro (mim). ^Beijinhos

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  7. Emocionei-me ao ler este texto, porque nem quero imaginar se me acontecesse o mesmo... deve ser uma dor inexplicável. Com certeza ela estará no céu a olhar pela irmã!
    Um beijo.

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