quinta-feira, outubro 03, 2013

O dia em que fui comprar um maço de tabaco.

Saí de casa com a desculpa de que ia comprar algumas lembranças e postais. O que não é mentira tendo em conta que quero enviar um postal à A. aqui do Algarve. Mas talvez por ver o J. a fazê-lo constantemente nos últimos dias e achar incrivelmente atraente aquela paz que transmite quando vai à varanda ou ao terraço e tem uns minutos em que é só ele e o mundo, a minha verdadeira intenção era comprar cigarros, deixar anoitecer, e sentar-me no muro da marginal junto à marina a ter os mesmos minutos para mim.
Não foi a primeira vez que o fiz, ainda que tenha sido a primeira que eu própria fui comprar o tabaco. Não me senti bem a fazê-lo, tal como não me sinto bem a fumar no meio das pessoas. A minha educação foi sempre no sentido de que fumar é quase um crime e eu senti-me como uma criança pequena que roubou uma pastilha no quiosque. Aqui, no entanto, é diferente. Ninguém me conhece, pelo que sou apenas mais uma turista no meio de tantos outros que passam completamente despercebidos. Prefiro que seja assim porque sei que dificilmente algum dia me sentirei segura para pegar num cigarro junto de quem conheço e me educou assim. Evito o vício. Fumar não é uma actividade que me atraia particularmente, embora, e já o disse aqui, goste da sensação de o fazer. Sei que é errado, que faz mal, mas não suporto os extremismos das mentalidades que o censuram em qualquer circunstância. Um cigarro de vez em quando, quando realmente preciso de relaxar, sabe-me bem e não fará assim tão mal. É como comer um chocolate durante a TPM, ir ao McDonalds porque se está com um apetite fervoroso por fast-food ou beber um copo a mais quando se sai com os amigos. Toda a gente o faz e ninguém julga ninguém por isso.
Enquanto estava ali sentada, já de noite, tive vontade que o J. aparecesse e descobrisse o meu segredo. Mentalmente, imaginei-o a olhar para mim com um falso olhar acusatório, a pegar no seu maço enquanto sorria e a fazer-me companhia. Conheço-o há poucos dias mas, ainda que quase pudesse ser meu pai, gosto do espírito dele. A verdade é que praticamente não lhe falo e sinto alguma compaixão por ele depois do que a S. me disse sobre não saber se ele é realmente quem ela quer ter ao seu lado. Chateia-me que ele nem imagine o que vai na cabeça dela. E talvez me chateie ainda mais porque me identifico em muito com ele, na forma de pensar e de agir, e vejo nele a pessoa ideal para se ter ao lado.

Voltando ao meu momento, no banco da marginal e de cigarro na mão, deu-me para querer falar com ele. Bem sei que o fumo do tabaco me deixa meio zonza, mas não creio que tenha sido isso que me fez tomar, pela primeira vez, a iniciativa de lhe ligar sem pretexto algum. Naquele momento estava a sentir-me sozinha e não tinha ninguém com quem falar. Ele foi, como sempre, a primeira pessoa que me ocorreu e vieram-me à cabeça aqueles pensamentos dos apologistas do carpe diem – se queres falar com ele não penses de mais e liga-lhe. Assim fiz. E soube-me tão bem! Sei que ele também ficou surpreendido por eu o fazer. Falámos enquanto eu regressava ao apartamento e ainda houve tempo para o ouvir dizer que já está farto que eu esteja longe e que quer estar comigo. Às vezes sinto-me a rapariga mais idiota à face da terra por continuar a dar crédito a esta situação. Se há dias em que o odeio e sinto que ele nunca poderá ser a pessoa certa, há outros em que sei que é com ele que tudo faria sentido e seria perfeito. A verdade é que acho que ele sente o mesmo. Ainda que tenhamos insistido para que assim não fosse, continuamos a gostar muito um do outro. Diria mesmo que vamos ser sempre apaixonados, ainda que saibamos que não vamos estar juntos. Não para já. No meu íntimo, sei que ele gosta tanto de mim quanto eu gosto dele. Tenho a certeza absoluta disso. E isto poderia ser motivo para nunca mais nos separarmos, mas não é. Por culpa exclusivamente nossa. 

4 comentários:

  1. Se há blog que me delicio a ler, o teu é um deles!
    Antes de mais espero que esteja tudo a correr bem aí por baixo :)

    Ainda há muitas pessoas que, em relação a fumar, também pensam assim... e conheço umas já um tanto crescidas (em idade), já emancipadas a todos os níveis e que continuam a esconder o facto de fumarem das pessoas da família, por exemplo. Acho que isso vai da sociedade em que vivemos e principalmente da educação, como bem disseste, que recebemos. Desde que não seja vício... também eu de vez em quando faço o mesmo, principalmente nos jantares com as amigas da faculdade.

    Quem te diz a ti que essa história não poderá ter um final feliz? se vocês estão destinados um ao outro, não acredito que alguma das partes não tome o primeiro passo para nunca mais se separarem. :)

    Beijinho*

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  2. Todos precisamos de um refúgio, de minutos só nossos, bucólicos quase. Não tenho vicios, nunca tive mas entendo quem tenha. Seja um copo ou um cigarro. Também não entendo as mentes julgadoras.

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  3. Partilho o mesmo pensamento.
    Começei a fumar na escola, levei uma tareia do meu pai quando descobriu e deixei de fumar porque me foi diagnosticada Bronquite asmática, No entanto, depois disso, ainda fui fumando um cigarro de vez em quando. A única vez que fumei em público foi no último dia que se podia fumar nos cafés. Fi-lo num sitio que tal como tu, ninguém me conhecia. Ainda ontem, sentada numa esplanada a beber um café me apeteceu fumar um cigarro.... :)
    Beijinhos e tudi de bom

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  4. o que achei mais graça nem foi a história do cigarro, foi essa parte final em que se cede ao telefonema. e ainda que, as vezes, uma pessoa se deixa ceder

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