sábado, fevereiro 22, 2014

Dissertações que não eram p'ra ser sobre este assunto mas que acabaram por ser.

Acho engraçado, no meu trabalho, como os rapazes se sentem logo tão à vontade para partilhar comigo histórias, opiniões e sentimentos tão deles e, às vezes, tão íntimos. Mas tenho gostado de os ouvir e de saber que, afinal, nem todos os rapazinhos de 15 anos andam por aí com as hormonas agitadas e a querer experimentar tudo aquilo para que ainda têm tanto tempo. Aliás, tenho-me apercebido, nesta pequena amostra de aspirantes a adultos que me vai passando pelas mãos, que as meninas são muito mais precoces e mais apressadas do que os rapazes. Não as culpo. Acho sinceramente que foi o que lhes foi ensinado erradamente. Se antes os rapazes terminavam com elas por não quererem dar o passo para um relacionamento íntimo, hoje são elas as primeiras a querer provar que estão preparadas. Há toda uma indústria de slut clothes and makeup a dizer-lhes que devem exibir o máximo de pele possível e maquilhar-se como se fosse Carnaval todo o ano. Depois também era bom que não houvesse artistas como Mileys e Rihanas, a mostrar-lhes que só são mulheres crescidas se tiverem um comportamento sexualmente explícito (bons velhos tempos em que o maior escândalo das artistas pop era dar um beijo lésbico, tal Britney e Madonna). Custa-me saber que o L., de 15, namora com uma rapariga de 13 que perdeu a virgindade aos 12. Chateia-me saber que a primeira vez dele, que ele quer que seja com ela mas não para já, seja com uma rapariga que, talvez pelos motivos errados, já o fez com uma pessoa que não vale metade do L. - um rapaz de 16 que usou e deitou fora. Entristece-me também pensar nos pais destas raparigas e na forma como as suas meninas, ainda crianças, têm tanta pressa de chegar ao mundo dos adultos. Eu tive a minha primeira vez com 16 anos e, apesar de o ter feito com a pessoa certa e no momento em que o quis fazer, também acho que não tinha perdido nada em esperar mais algum tempo. Não me arrependo em momento algum de ter dado esse passo e fi-lo em plena consciência do que ia fazer e das precauções que tinha que tomar. Fi-lo com a pessoa que, na altura, era tudo para mim e para quem eu também era tudo e foi um momento bonito que guardo e recordo pelos melhores motivos. Mas será que alguém que o faz com 12 anos e sabe-se lá em que circunstâncias pode dizer o mesmo que eu? Parece-me que, mais tarde, vão recordar o momento como um erro, como um passo dado demasiado cedo e que, por isso, não foi o que poderia ter sido. Não quero sequer imaginar que um dia uma filha minha possa fazer o mesmo e assusta-me fortemente essa ideia. Talvez prefira, afinal, ter um filho rapaz. Pelo que tenho visto parecem-me mais atinados e mais ponderados na hora de dar esse passo. Claro que tenho visto apenas bons exemplos, bem sei que meninas de 12 anos não perdem a virgindade sozinhas mas, bolas, que mundo é este em que os pais permitem que os seus filhos tenham acesso a tantos maus exemplos e que, por exemplo, ainda os acompanhem orgulhosamente e incentivem a ir a concertos que são autênticos antros de sexo? É normal os adolescentes terem ídolos e gostos musicais que os envergonharão uns anos mais tarde. Eu fartava-me de ouvir BSB, Blue ou Westlife, mas as músicas deles falavam sobre amor e romance. Hoje em dia fala-se se putas e foda. Porque é mesmo assim e o facto de serem palavras ditas em inglês não lhes dá outro significado. Envergonha-me, principalmente quando no meu dia a dia como profissional sou levada a reflectir sobre isso, que tenhamos chegado a isto. Em que ouça histórias de miúdas de 12 e 13 anos que se agridem e ofendem gravemente por causa de um rapaz qualquer cheio de borbulhas. Chateia-me que os pais não lhes ensinem nada sobre regulação emocional. Chateia-me que meninas com deficiência mental sejam apalpadas por rapazes mais velhos quando começam a desenvolver as suas curvas. Entristece-me tanto que os pais dessas meninas, que lhes deveriam proporcionar segurança, vejam esses avanços como brincadeiras e ainda as incentivem a ter vários namorados só porque é engraçado! E enfurece-me que ninguém faça nada, que essas meninas com 14 anos apareçam grávidas a qualquer instante porque nem sequer sabem como se chamam as suas partes do corpo mais íntimas e não faz mal se lhes quiserem tocar porque prometem não as magoar e o sexo (que elas não sabem o que é) é uma coisa boa. Pois, pois é. Mas não assim. Não quando há abusos, não quando não se percebe o que é e o que deve significar e, muito menos, quando não se tem consciência de que é isso que se está a fazer ou se faz só porque nos pediram com jeitinho. 

7 comentários:

  1. O mundo mudou muito! É caso para dizer isto!

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  2. Não podia concordar mais contigo! Eu perdi a minha virgindade aos 19 e não me arrependo. Até foi numa boa altura e se até antes de eu começar a namorar com o meu namorado fosse virgem ainda ia a tempo.
    Mas eu tive sempre uma educação muito fechada, onde muita coisa era tabu mas tinha amigas que eram umas tolas. Já tinham perdido a virgindade e que comecei a falar de sexo quando me comecei a dar mais com elas. Mas não foi por isso que tive pressa de experimentar. Eu ainda nem conhecia bem o meu próprio corpo!
    Também me entristece ver o que tenho visto nestes tempos e fico muito irritada que assim seja.

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  3. Concordo tanto, mas tanto com este teus post, Jude. Durante algum tempo, o medo que tu tens pelas tuas futuras filhas (que eu também tenho, é certo), eu tive pela minha irmã mais nova. Neste momento está com 14 anos e esse assunto não me incomoda minimamente porque vejo nela uma inteligência e uma consciência que infelizmente não vejo na maioria das colegas dela!

    Hoje em dia o sexo está tão banalizado. E o pior é que isto está assim há muito tempo. Eu perdi a minha virgindade com 20 anos e, tal como tu, foi com alguém a quem amava com as entranhas e que sentia o mesmo por mim (e imagine-se: ao fim de um ano e dois meses de namoro :$), num momento perfeito para ambos, e acredita que durante muito tempo me senti algo "marginalizada" por outras raparigas que diziam que fazer sexo aos 12/13 anos era muito cool.

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  4. Como profissional de saúde, já tive alguns casos de meninas de 13/14 anos a chegarem à minha beira e dizerem que precisavam de fazer o teste de gravidez porque poderiam estar grávidas...mas tudo isto com uma naturalidade quase assustadora... Claro que eu não podia fazer juízos de valor, mas, como profissional, alertava-as para as consequências de actos irreflectidos e sem precaução. Mas, era como falar para as paredes. Esta nova geração de miúdos está muito mal preparada para a vida, não pensam nas coisas, resolvem tudo com violência, acham que ter sexo com o primeiro que aparecer é que é. Há uma crise de valores descomunal e isso assusta-me imenso, até porque estes miúdos são os adultos de amanhã...

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  5. opa... li tudo e realmente é verdade. Já na minha altura e com certeza na tua também era assim, havia muito isso, o querer parecer 21 com 14/15 anos. Não tão evidente como é agora e como tu dizes com as slut clothes e makeup...
    Acho que o problema é o descartar talvez dos pais. Porque se não descartarem os filhos... "perdirem" tempo em dizerem-lhes que sao perfeitos como sao, que sao lindos e maravilhosos, que valem muito mais que um gajo que faz o que bem quer delas.
    Deixaste-me a pensar por acaso...

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  6. Embora concorde completamente com tudo o que escreveste, este meu comentário não se vai focar no teu post.
    Apesar da minha aparente ausência, o teu blog é um dos que eu nunca deixo de ler quando tenho um tempinho e cada vez mais admiro a pessoa que és. Muitos parabéns por tudo o que alcançaste nos últimos tempos, foi mais do que merecido! Desejo-te a maior felicidade e sorte :)

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  7. Assusta-me que estes jovens de 12/13 anos estejam a viver tão apressadamente. A querer serem adultos, ou a pensar que o são, só porque fazem coisas de pessoas mais velhas. E quando, no fundo, ainda são uns meninos e umas meninas... Não encontro razões para o que vejo na rua, para estes comportamentos que descreves no post. Penso no meu filho, em como será a sua geração quando ele tiver 12/13 anos. E confesso que fico com receio.
    Este teu post deixou-me a pensar. Já tinha pensado nisto, mas hoje fiquei mais apreensiva. Espero poder educar o meu filho da melhor maneira e que ele não queira viver tudo cedo demais...

    beijinho

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