segunda-feira, março 10, 2014

Do trabalho.

Quando iniciei o estágio passei uma autêntica tortura durante as primeiras semanas porque, simplesmente, não tinha nada para fazer. Passei horas e horas a consultar processos que nunca iriam ser meus apenas para me ocupar e ir aprendendo qualquer coisa. O meu orientador, por sua vez, tinha o horário de tal forma preenchido que só o via quando chegávamos e à noite, quando saímos. Há três meses atrás ele atendia quase 50 casos por semana e eu admirava a forma como ele conseguia fazer reset de um para, logo a seguir, entrar noutro registo. Na altura chegou a comentar comigo a dificuldade dessa tarefa quando se faz psicologia, e a forma como o cérebro fica sobrecarregado de informação e é incapaz de a arrumar e deixar de parte ao fim do dia. Passados três meses a minha rotina já é diferente. O horário dele está mais livre graças aos casos que me foi passando e, apesar de os meus 15 casos estarem longe dos quase 50 que ele tinha na altura, vou-me sentindo mais útil e mais ocupada. Além dos casos aqui no centro tenho também um dia por semana em que estou num infantário, onde vou fazendo avaliação e intervenção em meninos mais pequenos. Às quartas, quintas e sextas o meu dia é tão preenchido que agora sou eu que praticamente não vejo o meu orientador além do inicial olá e do até amanhã ao fim do dia. Às vezes sinto a falta de ir p'ro gabinete dele e estar à conversa, que era a prática diária até há pouco tempo. Chegamos ao cúmulo de estar em salas ao lado uma da outra e comunicarmos por email. Mas faz parte. Começo também a perceber como realmente o cérebro fica sobrecarregado. Trabalhando com pessoas e não com máquinas é difícil chegar ao fim do dia ou ao fim-de-semana, deixar tudo de lado e não pensar mais nisso. Somos seres emocionais, sentimos empatia pelas outras pessoas e, por isso, os problemas delas preocupam-nos e pensamos em soluções e em formas de intervir. Às tantas, o nosso cérebro deixa de responder a tarefas mais básicas e deixa sequer de reter informação acerca de coisas menos importantes. Nos últimos dias tenho-me debatido com dúvidas como será que tranquei a porta do centro quando saí? ou será que guardei o dinheiro que os pais me entregaram?. Dou por mim com a mente totalmente vazia em relação a esses pormenores, apesar de conseguir reter toda a informação das anamneses dos miúdos. Não me queixo, prefiro a minha rotina agora à rotina que tinha quando comecei. Não, nem todos os casos são entusiasmantes e desafiantes e há mesmo casos que preferia não ter de todo! Mas é recompensador saber que, de uma forma ou de outra, se está a fazer a diferença na vida das pessoas. Para melhor. E que o nosso trabalho vale a pena. Às vezes as dúvidas transformam-se em certezas e eu vou tendo cada vez mais a certeza que ser psicóloga é aquilo que quero fazer! 

7 comentários:

  1. Psicologia foi uma área que quis seguir durante uns anos ... mas, depois, lá achei que não.. Mas nunca pus de parte a ideia de trabalhar com pessoas. Aliás, hoje estou num curso que em que se trabalha exatamente com pessoas. Ainda que não tenha muita experiência, estes mini estágios que tenho vivido este último ano dão-me um cheirinho daquilo que um dia espero conseguir fazer. E depois também espero escrever um texto tão lindo como aquele que acabaste de publicar :) Beijinho e que tudo te corra bem!

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  2. E é tão bom quando fazemos o que gostamos!

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  3. acredito que seja muito dificil desligar. eu comecei a seguir um caso na semana passada (já tinha seguido dois anteriormente, mas as clientes desistiram entretanto) e é mesmo dificil pra mim desligar do assunto, pensar noutras coisas. dou pro mim a lembrar-me da pessoa, mesmo das que desistiram, a pensar em como estarão, o que será que as fez desistir, como será que estão a lidar com o problema, o que fazer para ajudar. essas coisas. sinto um peso enorme nos ombros depois daquelas consultas mais "pesadas". e eu ainda nem tenho experiência nenhuma, imagino quando começar a sério!

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  4. Que tipo de casos é que preferias não ter?

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    1. *se é que podes responder de uma forma geral

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  5. Tens uma profissão muito nobre e que sim, faz a diferença na vida das pessoas =)

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  6. É tão bom sabermos que estamos a seguir o caminho certo, que realmente temos vocação para o que escolhemos. Que tudo te corra bem! :)

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