segunda-feira, abril 28, 2014

Reflexões.

No meu último post houve algumas opiniões divergentes. Respeito-as a todas de igual modo, independentemente de serem ou não a minha forma de olhar sobre as coisas. Mas algumas dessas opiniões deixaram-me a pensar sobre a forma como cada vez mais pessoas se sujeitam a coisas que não deveriam acontecer! Um comentário dizia que eu deveria era sentir-me mais agradecida por ter arranjado um estágio, que a forma como falo das minhas chefes é arrogante e que há imensas pessoas que davam tudo p'ra estar no meu lugar. Face a isto tenho de referir quatro coisas:

1. Nunca em momento algum eu disse não estar agradecida pela sorte que tive. Aliás, se me der ao trabalho de procurar, encontro vários posts precisamente sobre isso. Sei perfeitamente que, tendo em conta a minha área de estudos e o panorama geral, foi mesmo muita sorte ter conseguido um estágio profissional remunerado no prazo de um mês após ter terminado o curso e sinto-me grata por isso a cada dia que passa.

2. O estado do país e as dificuldades pelas quais tanta gente está a passar devem servir para relativizarmos a nossa própria situação, mas nunca para a aceitarmos como está se não nos realizar. Por essa ordem de ideias as pessoas que estão a receber RSI (e há cada vez mais doutorados nessa situação, não são apenas pessoas que nunca estudaram nem tiveram emprego) deviam estar muito agradecidas porque, afinal, há milhares de mendigos nas ruas e pelo menos eles (ainda) não estão nessa situação. E, face a isto, as pessoas que recebem o ordenado mínimo também não se podem queixar porque as pessoas que recebem RSI têm problemas muito maiores. Eu sei que, comparada a esses casos, a minha situação é favorável. Por enquanto... pelo menos até terminar o estágio em dezembro. A verdade é que não sei como estarei depois disso. Mas não significa que me deva conformar a ela. Se pensarmos bem nisso, ninguém se deveria conformar com estes estágios profissionais, apesar de serem melhores que o desemprego. E as pessoas até sabem disso, caso contrário nem sequer estavam sempre a invocar as condições magníficas dos outros países porque, pela lógica anterior, todos os estagiários deveriam estar muito agradecidos uma vez que recebem um pouco mais que um ordenado mínimo.

3. Deixando de parte as questões económicas dos empregos, passemos às questões pessoais. Toda a gente sabe, ou deveria saber, que o ambiente de trabalho é o maior incentivo motivacional das pessoas. Não, não é o ordenado. Sei disso porque o estudei na faculdade e a investigação mostra que, face a boas condições de trabalho e a um ambiente saudável, as pessoas nem se importam de receber um pouco menos. Porquê? Porque ao menos sabem que ali se sentem bem e à vontade, com liberdade para falar e expressar ideias e opiniões. Claro que quando há patrões que seguem a lógica do "os meus empregados deviam era estar muito felizes por eu lhes dar emprego e piar baixinho que quem manda aqui sou eu" e ainda por cima não pagam assim tão bem, as pessoas não se podem sentir satisfeitas. Por muito que evoquem que "epá, pelo menos não estou desempregado", e por muito que isso até sirva para dar algum alento e relativizar as coisas, a verdade é que não tapa todos os buracos e, mais uma vez, jamais deve servir p'ra nos conformarmos a condições que não são ideais e jamais deve servir para deixarmos de procurar por condições melhores e aceitarmos o que temos só porque há quem esteja pior. Afinal, cada pessoa tem os seus problemas, mais ou menos graves, são os seus problemas e vão sempre preocupá-la independentemente de ter a noção que há coisas mais graves. 

4. A forma como falo das minhas chefes talvez seja, de facto, arrogante. Mas quando escrevo sobre isso estou no calor do momento, apetece-me chamar-lhes todos os nomes possíveis e imaginários porque elas são de facto como as descrevo. Não estou a inventar. Tal como já disse mil vezes que o meu orientador é magnífico, não tenho porque não dizer que elas são execráveis. O blogue serve-me precisamente para eu escrever o que penso, seja bom ou mau. E nunca apareceu nenhum comentário a "criticar-me" por eu ser muito boazinha a falar de outras pessoas. Porque hão-de aparecer ao contrário? 

10 comentários:

  1. Entendo-te bem. Passamos às vezes situações limite por causa de pessoas que, se descessem lá das alturas em que se puseram, até eram evitáveis. Para tudo é preciso equilíbrio e respeito, porque no fim tudo se faz e se houver motivação não é o dinheiro nem as horas-extra não pagas que nos vão impedir de fazer a dita cuja coisa.

    O blogue é teu, escreves realmente o que te apetecer. Há um texto do RAP, talvez uma Mixórdia, em que ele divagava sobre esta característica tão portuguesa «do há pior» e que nos faz aceitar o inaceitável e acomodar-nos. Essa é que é essa.

    Vá, ânimo! Depois do estágio esperam-te coisas melhores, mais não seja tempo livre para pensar. (:

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  2. Eu li esse comentário e até pensei em responder, porque não concordei nada com o que a pessoa disse. Não acho que sejas arrogante quando falas dos teus chefes. De todo. A não ser que desabafar e ter uma opinião sobre quem quer que seja, seja considerado arrogância.
    E há outra coisa. Tu conseguiste o estágio por algum motivo. Não te caiu do céu por obra e graça do espírito santo. Tu esforçaste-te. Fizeste a licenciatura e depois o mestrado. O facto de teres conseguido um estágio é um reflexo do teu esforço e do teu trabalho. Isto supondo, até pelo que percebi, que não conseguiste o estágio através do factor C.
    Bottom line: tu esforçaste-te. e tens o direito de querer mais e melhor. não é arrogância nem quer dizer que sejas mal agradecida. é mesmo assim. :)

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  3. Essa imagem com esse facto foi muito bem escolhido. É aliás algo com que as pessoas deveriam consciencializar-se, nomeadamente a chefia. Há formações de liderança por algum motivo e hoje debate-se ainda mais esta questão por algum motivo.
    Foi só um à parte!
    Acho que deves e muito bem desabafar aqui e sei o que é ter D trabalhar num ambiente onde o medo impera. Destruiu-me por dentro. Mais vale olhar por nós certo?
    Beijo grande

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  4. Tens toda a razão. Hoje em dia há este estigma de que quem se atreve a dizer mal do trabalho que tem é um grandessíssimo mal-agradecido e devia apodrecer no inferno das filas para o centro de desemprego. Estar no desemprego e não encontrar trabalho é das situações mais desesperantes que podem existir, mas ir para um ambiente de puro terror psicológico não é melhor. Acho que muitas pessoas que fazem essa crítica querem que os outros se ponham no lugar deles sem tentarem por-se no lugar dos outros por 2 segundos. Há sempre pessoas em pior situação do que nós, mas o facto de o estado económico do país estar péssimo não é desculpa para vivermos completamente infelizes e doentes. Especialmente quando se tens outros possíveis projectos para o futuro. Além disso eu não preciso de te conhecer pessoalmente para perceber que és muito boa no que fazes e bastante sensata, com certeza que não tomaste essa decisão de ânimo leve.

    Também não acho que sejas arrogante na forma como falas das tuas chefes. Estar num cargo de liderança trás uma responsabilidade enorme. São posições de prestígio que devem ser merecidas e um líder, especialmente na área da psicologia (não sei se é o caso) tem OBRIGATORIAMENTE que conseguir cativar as pessoas que chefia, senão não é a pessoa certa para o cargo. Um lider que instiga um terror psicológico tal que te leve a ponderar não aceitar a proposta de emprego não pode estar a fazer bem o seu trabalho. Ou tu és maluca ou elas não estão a liderar bem, uma das opções tem que ser.

    Desejo-te muito boa sorte nesse assunto. E desculpa ter-me alongado tanto:P

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  5. Concordo com isto que dizes aqui. Não devemos acomodar-nos, devemos sempre procurar algo melhor, (ou pelo menos tentar), algo que nos realize mesmo!

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  6. Se amanhã o teu chefe te aumentasse o salário em 500%, mantinhas essa ideia de querer sair no fim do estágio? Eu sei que isto irreal, mas se calhar irias ponderar melhor a situação. Quando os salários são baixos e o ambiente não é o melhor, temos aquele pensamento de "o meu ordenado não é suficiente para aturar estas coisas". Isto para dizer que o salário também tem a sua importância na motivação, o problema é que o seu valor é directamente proporcional à sua importância na motivação. Depois há a questão dos objectivos a longo prazo, tanto a nível pessoal como profissional, também servem como base de motivação porque estão ligados. Se achas que consegues arranjar outro emprego rapidamente depois desse estágio, acho que fazes bem, caso contrário, estás a arriscar ficar fora da tua área de contacto, onde, independentemente das tuas chefes serem umas araras, estás a ganhar experiência.

    "Nunca apareceu nenhum comentário a "criticar-me" por eu ser muito boazinha a falar de outras pessoas. Porque hão-de aparecer ao contrário?"

    Qual seria a razão de criticar o facto de seres muito boazinha?

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    1. Anónimo, é óbvio que uns factores têm de compensar os outros. Mas, then again, não me parece que baste um ordenado alto p'ra fazer com que engolir sapos seja divertido. E, se leste bem o que escrevi, eu referi "ainda por cima não pagam assim tão bem", ressalvei essa questão... Um trabalho excelente sem ser pago não é satisfatório, da mesma forma que um trabalho horrível com um excelente ordenado também o não é. Mas sim, tens razão quanto ao ganhar experiência e eu não pus isso de lado. E se pondero a hipótese de sair no final é porque vejo outras alternativas.

      Criticar não é apenas uma coisa negativa. Pode ser positiva. E se ninguém critica positivamente boas atitudes, não há porque criticar negativamente as que não lhe agradam. Foi só isso que quis dizer.

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  7. Concordo com cada palavra... o facto de termos sorte em arranjar um emprego em tempo de crise, não significa que esse passa a ser o melhor emprego do mundo e que não se queira procurar algo melhor. A constante busca pelo melhor, por aquilo que queremos e que nos faz felizes é que dá cor à vida. Mas depois vêem sempre estas alminhas atirar pedras porque deviamos era estar todos contentes por termos uma casa, comida e um emprego, por muito mau que sejam, porque há quem tenha pior. Tudo bem, mas há quem tenha muito melhor também!! Isso não é motivo para deixarmos de olhar pra nossa vida e desejarmos mais do que aquilo que já temos. Só mentes muito pequeninas pensam que não podem melhorar a sua vida ou nem sequer têm desejo para tal. Se tens possibilidade de arranjar algo melhor, força! Com prudência, obviamente, tal como já tinha referido no comentário ao post em questão. Mas ser prudente não significa comer e calar, aceitar tudo o que nos aparece porque "há quem não tenha nada, devia era fica feliz com isto".

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    1. "o facto de termos sorte em arranjar um emprego em tempo de crise, não significa que esse passa a ser o melhor emprego do mundo e que não se queira procurar algo melhor" - disseste tudo :)

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