quarta-feira, setembro 23, 2015

sorting out feelings.

O R. mora cá em casa. Desde o meu primeiro dia aqui que me senti bem com ele. Sentimo-nos bem os dois acho eu. Desde o momento em que estivemos os dois a preparar parte do jantar, nas traseiras, sozinhos e em silêncio. Isto porque eu não sei romeno e ele mal sabe inglês. Desde então temos partilhado vários momentos, curiosamente, quase todos relacionados com a preparação do jantar. Sinceramente, quase cheguei a desconfiar que a Irmã G. estava a conspirar para nos manter sempre juntos. Jude, precisamos de pimentos, vai com o R. colher à horta. Jude, tu e o R. podem ir para a cozinha preparar os legumes para a pasta. Jude, o R. vai agora à mercearia comprar ovos. Vai com ele... Vá lá! São coisas que um de nós poderia fazer perfeitamente sozinho. Mas ok, confesso que não me importei porque foram momentos que nos permitiram conversar um pouco e ficar a conhecê-lo melhor. Mesmo que na maior parte das vezes em que tento falar com ele, ele não perceba o que eu digo e me responda apenas com sorrisos!
O R. é enfermeiro e tem um coração bonito. Enquanto caminhávamos para a mercearia toda a gente o cumprimentava e ele fazia questão de cumprimentar todos de volta. Confesso que o meu coração derreteu um bocadinho quando o vi ser tão carinhoso para as pessoas, principalmente quando cumprimentava com um abraço aqueles que visivelmente eram pobres, muito pobres. Vi no rosto deles, que se abria instantaneamente num sorriso de gratidão, que estavam habituados àquele abraço. Imagino que para estas pessoas não seja algo comum de se receber. 
O R. anda a estudar inglês porque quer ir trabalhar para o Reino Unido. Sempre que chego a casa, lá está ele, sentado no mesmo lugar, a estudar. Eu chego e cumprimento-o. Não digo muito mais porque já sei que ele não entende e não quero tornar o momento embaraçoso. Vou para o meu quarto, ouço música, falo com os meus amigos, com a família, estudo romeno... Nesse entretanto ouço a remexer-se na cadeira. Muitas vezes sinto vontade de ir lá, de perguntar se posso sentar-me na sala com ele. Mas não quero interromper-lhe o estudo. Na segunda-feira, ouvi-o mais agitado do que o costume, a caneta deve-lhe ter caído umas três ou quatro vezes. Passados uns minutos, ouvi-o levantar e sair. Continuei no meu quarto por algum tempo até que me levantei e fui buscar um copo de água. Vi-o pela janela a estudar no alpendre, na rua. Com o frio que estava não sei bem qual foi a ideia dele. Talvez cerca de uma hora mais tarde, ele voltou para a sala. Eu ouvi-o chegar mas não disse nada. Ele continuava a estudar em silêncio e eu, depois de me encher de coragem, fui até lá e ofereci-me para o ajudar. Ele já devia estar à espera que  eu o fizesse há algum tempo porque aceitou logo e pediu-me para treinar com ele a entrevista que vai ter. Já tinha uma série de perguntas preparadas e o meu papel era ouvir as respostas e corrigir o que fosse necessário no inglês. Eu sentei-me e ouvi. Quando ele começou a falar no seu inglês ainda muito pouco treinado, tive a sensação que ele devia ter arranjado maneira de saber mais sobre mim e tinha preparado as respostas para me impressionar. Mas não. Não tinha como saber nada sobre mim. Ele apresentou-se, disse o nome, a idade, de onde era. Falou da universidade que tinha frequentado, das disciplinas que mais tinha gostado  e do que gostava de fazer nos tempos livres. Disse que gostava de ler, sobretudo sobre psicologia e desenvolvimento humano (ele não sabia que eu sou psicóloga, não tinha como saber)! Que gosta de assistir a documentários sobre o Universo e sobre o funcionamento do cérebro (esquecendo a parte do Universo, tenho planos para um dia fazer uma pós-graduação em Neuropsicologia)! Que gosta de passear na natureza, sobretudo nas montanhas (A sério... isto é demais.)! Como se isto não fosse suficiente para mostrar a nossa compatibilidade, há outras coisas que já tinha descoberto sobre ele, como o facto de preferir o inverno ao verão, tal como eu. Durante todo o tempo eu ouvi e fiquei calada, até que fomos interrompidos pelo Padre A. que chamou para jantar. Prometi-lhe que continuaríamos a treinar no dia seguinte, mas entretanto não pude cumprir a promessa. Ficou combinado para hoje. Vou também perguntar-lhe se sexta-feira quer ir comigo e com os outros voluntários ao planetário da cidade. Vai estar aberto ao público para observar as estrelas e uma vez que ele gosta do tema, parece-me bem convidá-lo. No meio disto tudo o mais chato é mesmo que ele conta partir para o Reino Unido já nas próximas semanas. 

7 comentários:

  1. Tenho-te a dizer que adorei a forma como este texto está escrito, fiquei com vontade de ler mais e mais.
    Aproveita estes momentos que tens com ele e tenha não pensar que ele se vai embora, afinal a vida é feita de pequenos momentos.

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    1. Concordo completamente! Até ia perguntar se este texto foi tirado de um romance... Lindo! :D

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  2. queremos mais desenvolvimentos!

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  3. parece que temos ai uma amizade que tem tudo para correr bem.. e até para mais :)

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  4. Há pessoas que perece estarem destinadas a cruzar o nosso caminho nem que seja para, apenas, nos fazer sorrir por breves instantes!

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  5. É sempre assim... que ódio! Quando algo surge, o tempo urge. Bahhh

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  6. adorei ler isto, absorveste-me por completo, vai contando mais!

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