quarta-feira, outubro 14, 2015

ainda sobre a desumanidade e o bem que sabe acabar-lhes com os planos.

Claro que humanos que maltratam animais há em todo o lado. Em Portugal também, obviamente. Poucas semanas antes de vir, ouvia-se de minha casa, um miar de gato bebé, muito insistente. O som parecia vir da casa de um dos vizinhos e por isso durante dois dias nem eu nem o resto da família demos muita importância. Afinal, tratando-se de um gato bebé era normal que miasse mais. No entanto, numa terça-feira de manhã, o meu primo chama-me para ir com ele ver uma coisa e, para meu espanto, vemos um gato com não mais do que duas semanas no meio da horta do tal vizinho. Continuava a miar, estava ali, no meio da terra, demasiado pequeno para conseguir andar. Obviamente que o retirámos de lá. Estava um calor abrasador e, pelo que sabíamos, o bichinho tinha estado ali dias seguidos  debaixo do sol, sem ser alimentado. Mais tarde confirmámos com o vizinho que o gato não lhe pertencia e que, tal como nós, imaginou que o miar viesse da casa de outro vizinho. Não acredito que tenha sido deixado pela mãe naquele lugar porque, se esta o tivesse rejeitado, o mais provável era tratar-se de um gatinho recém-nascido. Também não demos conta de nenhuma gata vir procurar o seu filhote onde o tinha deixado - aliás, as gatas têm sempre o cuidado de deixar os gatinhos num sítio quente e escondido, não no meio da terra, sem abrigo à volta. Imagino que terá sido um humano qualquer que se quis ver livre dele e deixou-o ali, à mercê do destino. Quem sabe se não terá deixado outros membros da ninhada noutros sítios. Mas aquele gatinho, que afinal se veio a revelar uma gatinha, estava destinado a sobreviver. Mesmo passando dois dias sozinha, com fome, com temperaturas a chegar aos 40ºC, teve forças suficientes para miar até ser socorrida. Quando a acolhi foi apenas para cuidar dela provisoriamente e, depois, encontrar alguém para a adoptar. Cuidar de um bebé tão pequeno é difícil e, por isso, passei bastante tempo a pesquisar de modo a garantir que não fazia nenhuma asneira - por exemplo, nunca se deve dar o leite com o gatinho de barriga para cima e tem sempre de se simular a lambidela na mãe no rabinho (com um algodão húmido) para que faça as necessidades. Também pode ser bastante dispendioso uma vez que não se pode oferecer leite de vaca e uma embalagem de leite em pó para gatos bebés custa pelo menos 20€. Eu não pude fazer esse investimento mas encontrei uma receita caseira sugerida por um veterinário que resultou muito bem (a quem interessar, basta colocar no liquidificador um copo de água mineral ou fervida, um copo de leite de cabra, a gema de um ovo cozido e uma colher de sopa de papa láctea - podem conservar até 4 dias no frigorífico). Nos primeiros dias cheguei a recear que não sobrevivesse porque teve um problema de obstipação que não se resolvia, mesmo após as indicações do veterinário, que recomendou que aplicasse Bebegel. Passaram vários dias e, já em desespero fiz-lhe tantas massagens na barriga que finalmente os pequenos intestinos cederam! Acho que nunca fiquei tão contente por ver cocó. A partir daí foi sempre a crescer. Foi baptizada de Mia Maria. Antes de vir ainda tive oportunidade de ver a transição para a comida sólida e de a ver a ganhar cada vez mais energia. Nessa altura já era ponto assente que faria parte da família, apesar de o Wally não ter achado muita piada. Para ela nunca foi um problema porque sendo bebé habituou-se rapidamente a conviver com um cão. Mas para ele foi mais complicado, principalmente devido aos ciúmes. Não ajudou o facto de ela aparentar preferir a ração dele à dela e, cada vez que ele a via a aproximar-se da taça, corria para comer tudo até ao último pedaço, o invejoso. Com o tempo ela também foi aprendendo a chateá-lo e, sempre que o apanhava a dormir, metia-se em posição de ataque saltava-lhe para a cabeça para lhe roer as orelhas. Acho que são coisas de irmãos. No fim do dia acabavam a dormir juntos no sofá. Agora apenas os vejo em fotos e vídeos e a minha mãe diz-me que ela age muitas vezes como um cão, o que é natural, já que foi o único exemplo que teve. Diz-me também que é muito doce e obediente mas nisso eu já não acredito tanto, uma vez que estamos a falar de um felino. Nas fotos ela parece cada vez maior e mais gira e é aí que quero chegar. Quem a abandonou abandonou-a para morrer. Não imagina que ela está bem e saudável. E é isso que me faz sentir bem - ter conseguido estragar os planos de alguém sem coração. Sabe mesmo bem cuidar de um ser tão pequenino e vê-lo vingar.  Não é fácil, é preciso tempo, dedicação e muito carinho, mas no fim é-se recompensado e bem recompensado. Quando chegar a Portugal ela já vai estar enorme, custa não estar lá todos os dias com ela e com o Wally, mas é bom saber que estão bem tratados e que têm muito amor.

primeiro dia.
uma semana depois.

três semanas depois.

um mês e meio depois.

6 comentários:

  1. vale sempre a pena investir na recuperação de um bichinho assim! :)

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  2. Oh, que fofinha! Há pouco tempo também adoptei mais um gatinho abandonado...agora tenho dois gatos e um cão, são os meus patudinhos lindos!

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  3. Boa, Jude! Que orgulho em ti! Ainda vais ter saudades dela bem pequena e carente. Eu quando vejo agora esta fera de 6kg a dormir aos pés da cama, só penso em como ele era amoroso quando o adoptei com 5 semanas. Cabia na palma da mão! Agora é um adulto de 3 anos muito chato e mau mas... que eu amo imensamente!

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