terça-feira, novembro 10, 2015

sorting out feelings.

Há três anos atrás publiquei no blogue este excerto d'O Dia que Faltava, de Fabio Volo:

- (...) Parece sempre que uma mulher não se casa por não ter encontrado a pessoa certa e não por opção. (...) Estava farta de ser olhada como uma coitada por mulheres que sonham vir a ser esposas a todo o custo. Por isso, mudei de ares.
- E agora andas à procura do homem perfeito?
- Espero que não... sabes, acho que o homem perfeito procura justamente a mulher perfeita. Não teria hipótese.
- Então o que procuras?
- Não sei. Talvez nada, talvez tudo. Talvez agora, mais do que procurar, queira viver aquilo que acontece, aquilo que a vida me dá. Gosto de jogar. De ser livre. Tenho um trabalho (...) que me agrada e que arranjei sozinha. Sinto-me feliz e orgulhosa em mim, mesmo quando faço compras e empurro o carrinho do supermercado. Se me dá na gana, à noite, saio; senão fico em casa a ler ou a ver um filme ou a fazer um petisco para mim ou para os amigos. Às vezes, ponho a mesa, ou então sento-me no chão, encostada ao sofá. (...) Não tenho por que discutir. Sou independente. Defenderei essa situação com todas as minhas forças. Sempre. No entanto, por vezes, também tenho necessidade de um abraço (...). Um abraço que me faça sentir protegida, embora saiba proteger-me sozinha. Sou capaz de fazer as coisas de que preciso, mas às vezes gostaria de fingir que não, só pelo prazer de levar alguém a fazê-las por mim. É uma sensação. Mas não quero estar com um homem por causa disso. Não posso ceder a compromissos e não posso renunciar a tudo o que tenho, à minha liberdade, por esse abraço que depois, com o passar dos anos, deixa de existir.
(...)
- Sei lá... gostaria de um homem com quem me sentisse bem. Um homem sentado ao meu lado quando estou no cinema, ou no restaurante, ou no autocarro. Gostaria de encontrar uma pessoa com quem pudesse partilhar perspectivas. Não quero dizer forçosamente casamento, filhos, etc. Mas também não quero um desses homens que se assustam quando pedes uma coisa mais distante do que dois dias. (...) Gostaria de alguém que me agradasse e gostaria de lho dizer sem ele se assustar, sem me fazer sentir que sou uma prisão. Gostaria de um homem que me procure com a mesma serenidade quando eu não o procuro. Como tu fizeste, ao vires cá. E, acima de tudo, gostaria de um homem que exista.
- O que quer isso dizer?
- Eu sei o que quero dizer, embora não consiga explicá-lo. Um homem que exista. Um olhar por detrás de tudo. É uma forma de olhar em silêncio que significa tudo para mim. (...)

Nos últimos dias tenho-me lembrado muito destas palavras por continuarem a definir tão bem o que sinto. 
Já aqui vos falei do O. de forma muito breve. Ele tem feito parte da minha vida desde que o conheci há quase um mês. No início tive dificuldade em perceber se o afecto que me demonstrava era apenas simpatia ou algo mais. Percebi que era mais na semana em que estive fora e em que ele me ligou apenas para me dizer que esta casa não era a mesma sem mim. Percebi que era algo mais quando no dia em que cheguei e em que não quis sair com eles por estar demasiado cansada das 12 horas de viagem, ele passou a noite a enviar-me mensagens. Também percebi que era algo mais quando na noite em que me chamou para partilhar com eles uma garrafa de pinot noir, mas em que eu já estava na cama e estava demasiado frio para voltar a sair, ele me disse the wine comes to you e apareceu à porta do meu quarto com um copo na mão. Suspeitei que fosse algo mais quando todos os dias em que depois de jantar ele se sentou ao meu lado no sofá e ali ficámos a conversar sobre tudo, enquanto ele me abraçava. Fui tendo mais certezas quando no sábado à noite fomos a um concerto e ele me abraçou o tempo todo, quando regressámos a casa e ele me deu a mão todo o caminho. Tive a certeza quando ele me deu um beijo na testa e um abraço antes de me dar o primeiro beijo nos lábios. Quando me deixou a dormir no quarto dele e foi dormir para outro quarto mas voltou passados 10 minutos, se deitou no sofá perpendicular à cama, e ficou de mão dada comigo até ir novamente embora, depois de me beijar outra vez. Não sei onde isto vai dar, não sei o que quer de mim, sei que não quero misturar as coisas uma vez que trabalhamos juntos todos os dias... Mas também sei que me sinto bem com ele, que as borboletas na minha barriga se sobressaltam quando ele me abraça e beija nos parcos momentos em que estamos sozinhos. Gosto de como ele se parece por fora, com os seus olhos azuis e o cabelo desalinhado, mas estou a gostar ainda mais como ele se parece por dentro, com o seu coração enorme e a preocupação constante com os outros, o  seu sentido de responsabilidade, as horas que trabalha todos os dias arduamente sem se queixar. Conheço-o há pouco tempo, por isso desconfio que não o conheço de todo, da mesma forma que ele ainda está tão longe de me conhecer. Ainda não sei se posso confiar nele, vou apenas deixando as coisas acontecerem devagar e naturalmente. Mantém-me segura saber que não preciso dele, mesmo gostando de o ter comigo. Estou habituada a estar sozinha, a ser livre e independente, e agrada-me continuar assim. Apesar de partilharmos a casa e o local de trabalho cada um faz a sua vida. Agora estou no meu quarto e não faço ideia de onde ele esteja, não me interessa saber - sei que o verei mais tarde, que me vai abraçar e que à noite, depois de eu regressar a casa e ele ficar no centro para dormir com os sem-abrigo, me vai ligar ou enviar mensagem a desejar boa noite. Ainda não sei se posso confiar nele, não sei o que quer, não sei onde isto vai dar. Mas, para já, não preciso de mais segurança do que esta.


5 comentários:

  1. só o tempo o pode dizer. Para já vai aproveitando o que surge da partilha diária, logo se vê o que dará

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  2. Aproveita o momento. O tempo trará as respostas às tuas dúvidas. ;)

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  3. uau :) é tão bom quando as coisas são assim simples

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  4. Fico mesmo muito contente por ti! E tens toda a razão, para quê pensar no amanhã se podes aproveitar ao máximo o dia de hoje? No fundo, é isso que importa. No fundo, a vida é uma colecção de bons momentos, independentemente do quanto eles possam durar. Aproveita e sê feliz :)

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