domingo, novembro 08, 2015

sorting out feelings.

Uma das coisas que tenho vindo a aprender com o tempo e com a vida é quem por muito bom que seja fazer planos e sonhar com o futuro, as coisas podem dar uma volta completa de um dia para o outro. E isso não é necessariamente mau. Pode até ser muito bom. Há dois meses atrás eu tinha a minha vida bastante delineada. Tinha uma proposta de trabalho na minha área, ia mudar-me para o Sul do país, ia morar com a minha irmã, ia trabalhar com uma amiga, ia candidatar-me a doutoramento este ano... Tinha imensos planos e, até certo ponto, a cabeça cheia de certezas. Não havia razão para as coisas não correrem como estava planeado. Mas, quando digo que as minhas certezas iam só até certo ponto, tem a ver com o facto de que, na verdade, talvez as dúvidas fossem mais abundantes. Hoje consigo reconhecer isso - consigo perceber que a minha vontade de mudar para uma nova cidade e trabalhar numa clínica era apenas um disfarce que encobria o medo do desemprego e, pior, do sub-emprego. Durante os dias, semanas e meses que passei em casa, meti na cabeça que aquele seria o passo mais acertado, mas apenas porque na verdade era o passo que sabia ser mais seguro. Mentalizei-me que tinha tido sorte ao receber aquela proposta porque, afinal, com tantos colegas sem trabalho, era tudo o que poderia desejar. Mentalizei-me que o Algarve não era assim tão longe, apesar de sentir que não era lá que queria iniciar a minha vida. Queria mesmo candidatar-me ao doutoramento mas, por outro lado, sentia tudo isto como amarras que me impediam de realizar outras coisas primeiro. Passei oito meses em casa e nesses oito meses estive presa a ideias que não passavam de suposições. Não estava nada confirmado, não estava nada definido, nada era garantido. E eu ia sonhando com programas no estrangeiro, sentia que se não o fizesse naquele momento não teria mais oportunidades no futuro mas, por demasiado tempo, a necessidade de fazer o que seria mais lógico, certo e seguro foi-se mantendo. A meados de Agosto viajei para o Algarve para passar uns dias com a minha irmã e para perceber como tudo funcionaria quando me mudasse. Foi óptimo ter ido lá naquela altura porque mal saí do autocarro senti que aquilo estava muito longe do que queria para mim. Nessa semana passaram-se muitas coisas, as principais dentro da minha cabeça e, quando regressei a casa no final de Agosto, estava certa de que não iria dar aquele rumo à minha vida. Foi como um clique na minha mente e a verdade é que me senti muito melhor naquele momento. Senti-me livre ainda que não fizesse a mínima ideia do que faria a seguir. Digo muitas vezes que tão ou mais importante do que saber o que se quer, é saber o que não se quer e, naquele momento, eu sabia que não queria ser apenas mais uma. Pode soar pretensioso, mas a verdade é que trabalhar numa clínica como aquela em que trabalhei antes, com chefes que não merecem o chão que pisam, a receber um mísero salário financiado pelo estado não é algo que me faça sonhar. Não é isso que quero para a minha vida e, mesmo que não consiga nunca nada melhor, pelo menos tinha e tenho que tentar escapar. Nos últimos dias de Agosto informei-me sobre programas Au Pair, Serviço Voluntário Europeu, estágios profissionais no estrangeiro. Mandei emails a pedir informações, imprimi páginas e mais páginas... No dia 30 de Agosto candidatei-me a quatro programas de voluntariado e, na manhã do dia 31, tinha um email a informar-me que tinha sido aceite no programa onde estou agora. Recebi igualmente resposta dos outros projectos e precisei de uns dias para comunicar com todos, perceber as condições e tomar uma decisão. Foi contudo um processo muito rápido, acho que não tive realmente a possibilidade de pensar e ainda bem. Se tivesse pensado demasiado talvez tivesse desistido. Não foi fácil o momento em que comprei a viagem. Surgiram-me milhares de dúvidas e de receios, mas sabia que era o que queria e que não poderia de forma alguma deixar de o fazer, principalmente quando tive a sorte de ser seleccionada (em 5000 candidaturas anuais em Portugal, só 150 é que são aceites). As dúvidas, claro, não foram só minhas. Nas duas semanas que se seguiram tive de informar os meus amigos e a minha família de que me ia embora para a Roménia por seis meses e as reacções foram sempre as mesmas: "Roménia?"; "Estás doida?"; "Porque é que queres ir para a terra dos ciganos?"; "É perigoso!" (e estas são apenas as reacções mais soft). Foi preciso muito jogo mental para ignorar os comentários e ir avante. Claro que também tive muitas vozes do meu lado. Um pouco apreensivas, mas que reforçaram a minha vontade e coragem. No dia 13 despedi-me da minha família, foi um dia difícil, não consegui sequer comer e deixei a minha casa com todos lá dentro a chorar. No dia seguinte apanhei voo para Madrid e, depois, para Cluj-Napoca. Foi a primeira vez que fiz uma viagem assim sozinha - só eu e as minhas malas em direcção a um país que não conhecia, para encontrar pessoas que nunca vira antes - e a verdade é que apesar do nervoso miudinho nunca senti que estivesse a cometer um erro. Quase dois meses depois tenho a certeza que não foi um erro. Foi antes uma das melhores decisões que tomei na vida, se não a melhor. Está a valer tanto, tanto a pena! Não só por sentir que estou a fazer algo realmente útil mas também pela oportunidade que tenho de conhecer tantas pessoas diferentes, de tantas culturas diferentes. Esta está a ser sem dúvida a experiência da minha vida e a única coisa que me vai atormentando é a velocidade vertiginosa a que o tempo está a passar. 

5 comentários:

  1. Revi-me nestas tuas palavras, principalmente quando dizes que "mais importante do saber aquilo que queremos é saber aquilo que não queremos"... Estou a passar por uma fase de recomeços na minha vida e, finalmente, consegui assumir para mim mesma aquilo que não quero para a minha vida...agora, aos poucos, estou a descobrir aquilo que quero mesmo... Espero que continue a correr tudo bem por aí :)

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  2. deve ser maravilhoso passar por uma experiência como essa, quem não arrisca não petisca como bem diz o povo e realmente também começo a perceber que sair da nossa zona de conforto é difícil mas vale muito a pena ! :)

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  3. Eu nunca teria a coragem necessária, principalmente porque não me imagino a viver longe dos meus (seja por quanto tempo for) nem a viver com pessoas desconhecidas. Mas admiro essa tua coragem e determinação!

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  4. Revi-me nas tuas palavras! A parte final deste texto vou ter que roubar :p
    Apesar da minha experiência ser num âmbito totalmente diferente, ser no país vizinho e de ser muito mais curta, aquilo que contas descreve exactamente o que senti nos últimos dois meses de ERASMUS.
    Desejo-te muita força, sobretudo porque vais passar aí o Natal e acredito que isso seja mais complicado. Mas sem dúvida que a tua atitude foi a melhor! A nossa vida acontece quando realizamos os nossos sonhos :)

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