quinta-feira, abril 07, 2016

E se fosse eu? - ainda sobre a humanidade e o refugiado que conheci

A campanha "E se fosse eu?", que anda a decorrer um pouco por todo o país, tem como objectivo sensibilizar as pessoas para a dificuldade de empacotar a vida numa mochila e partir, como refugiado. As acções desta campanha, a desenvolver em escolas, pretendem promover um sentimento de empatia para com o cidadão refugiado - sendo empatia, de modo geral, a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro.
A RTP decidiu contribuir para a campanha fazendo a mesma pergunta a várias figuras públicas - o que levariam na mochila se tivessem de partir como refugiados? Tudo muito bem... obviamente as figuras públicas têm, pelo seu mediatismo, uma maior influência na opinião pública. Mas é aí que às vezes surge o problema, quando essas pessoas, por muito boas intenções que tenham, acabam por dizer o que, na minha opinião, é completamente desfasado da realidade. Falo da resposta dada pelo Nuno Markl a essa questão, em que ele diz que no caso de ele e o filho partirem como refugiados, não precisariam de muito mais para sobreviver do que "papel e caneta... cadernos". Para desenhar e registar o que se passava. Foram estas as palavras. Quase como se a pergunta fosse "o que levaria para uma ilha deserta?". Não censuro o facto de ele querer levar papel e caneta, mas dizer que não precisaria de muito mais é mesmo a mostrar que não faz ideia do dia-a-dia de um refugiado. Disse ainda que não levaria gadjets e bem sei, a julgar por outros comentários que li, que a maioria das pessoas, que tudo o que sabem sobre refugiados é o que vêem na manipulação/comunicação social, acreditam que a vida de um refugiado é passada dentro de um barco de borracha em alto mar ou no meio da floresta sem acesso a electricidade onde possam carregar o telemóvel. Não é. Essa é uma fase, obviamente, mas nem todos chegam à Europa dessa forma e não é essa a definição de refugiado!
No Natal tivemos lá em casa um refugiado iraquiano por uns dias. Tinha sido impedido de permanecer na Alemanha, onde já estavam outros elementos da família, e acabou na Roménia à espera dos documentos para voltar à Alemanha legalmente. Era refugiado sim, não tinha mais que uma mochila, mas tinha um smartphone que tinha onde carregar, e que o permitia comunicar com a restante família e com as entidades que estavam a tratar dos documentos de que precisava. Aqui chegamos a outro ponto de discórdia e a um estereótipo errado - os refugiados não são necessariamente pobres! Mas o facto de terem dinheiro não lhes retira valor nem direitos. Este rapaz tinha mais ou menos a minha idade e tinha uma família considerada rica. Tinha um negócio seu numa das zonas mais ricas do Iraque. Tudo foi destruído num atentado à bomba. Perdeu o negócio e perdeu a namorada de anos, que morreu na explosão. São estas situações que transformaram estas pessoas, que vemos agora na televisão, em refugiados. São estas situações que não fazemos ideia de como são na vida real e que leva a que se ouçam coisas um tanto descabidas. Depois do que se passou na vida daquele rapaz não me parece que tivesse sequer disponibilidade emocional para se por a desenhar pelo caminho.
O que levam nas mochilas? Não sei, nunca poderei imaginar. Mas com certeza levam as histórias dramáticas que nunca conseguirão deixar para trás. Estas pessoas não partem por por quererem incomodar a Europa. Aquele rapaz preferia voltar sozinho para o Iraque a ter de viver noutro país mas longe da família. Quando ouço outros seres humanos a criticar a vinda destas pessoas e o facto de terem casas à espera ou de quererem escolher o país para onde vão dá-me vontade de tirar essas inteligências raras das suas vidinhas por um dia e deixá-las na Síria só por umas horas. Só para verem como é bonito e acolhedor por lá e para ver se deixam de ser egoístas e egocêntricos com pessoas que são iguais a todos nós. ALGUNS refugiados querem escolher o país porque muitas vezes é nesses país que já têm alguém à espera. E não importa se trazem muito ou pouco dinheiro na mochila porque, certamente, nem todo o dinheiro do mundo lhes fará esquecer a vida que perderam... as namoradas, os pais, os filhos, irmãos ou até todos os elementos da família que morreram em atentados e que os fazem querer partir e recomeçar noutro lugar.

Adenda: E depois há respostas como a da Joana Vasconcelos, que se fosse refugiada, eventualmente depois de ter perdido entes queridos em explosões e afins, levava o caderno e lápis, "para poder fazer os desenhos", as jóias e as lãs, o iPad e o iPhone, os fones e os óculos de sol. E há também a RTP, um canal de televisão pública que não se envergonha de passar estas pérolas. 

4 comentários:

  1. As pessoas não têm mesmo noção (e por um lado, ainda bem, que é sinal que nunca passaram por nada parecido). Mete-me muita confusão quando as pessoas vêm com a história de que são contra a vinda dos refugiados. Digo sempre "Se Portugal estivesse em guerra, se tudo o que tens cá se acabasse e tivesses que fugir para estar em segurança, não ias querer que outras pessoas te abrissem a porta de casa?". Até hoje, calei todos com esta questão. Nunca mais ouvi ninguém reclamar mais. Ficam a pensar no assunto. O nosso problema é achar que eles vêm para cá por capricho, como se alguém decidisse deixar o seu país, a sua casa, a sua família e a sua vida confortável só porque sim.

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  2. As pessoas não têm mesmo noção (e por um lado, ainda bem, que é sinal que nunca passaram por nada parecido). Mete-me muita confusão quando as pessoas vêm com a história de que são contra a vinda dos refugiados. Digo sempre "Se Portugal estivesse em guerra, se tudo o que tens cá se acabasse e tivesses que fugir para estar em segurança, não ias querer que outras pessoas te abrissem a porta de casa?". Até hoje, calei todos com esta questão. Nunca mais ouvi ninguém reclamar mais. Ficam a pensar no assunto. O nosso problema é achar que eles vêm para cá por capricho, como se alguém decidisse deixar o seu país, a sua casa, a sua família e a sua vida confortável só porque sim.

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  3. Realmente a ideia que se tem dos refugiados é muito errada. Nunca conheci nenhum, mas consigo imaginar que se o mesmo acontecesse em Portugal e todos nós tivéssemos que partir, uns partiriam mais ricos do que outros. Mas nestas situações não será uma questão financeira nem material, mas sim uma questão de traumas que devem ser sem dúvida dos piores que se pode ter.

    Bjxxx

    Espero ver-te em breve em
    Ontem é só Memória | Facebook | Instagram

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  4. Estive a estagiar com refugiados. Não só os mais falados actualmente, como em grande maioria os de Africa. E adorei! São pessoas assustadas, lutadoras e com as quais adorei falar, ouvir as sua vivencias. Foi uma honra conhece-los.

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